16/09/10

Minibio

A corda vocal de esgotos. 
O órgão vital de catacumbas. 
A rigidez cadavérica do sol. 
A reencarnação do espírito maligno que convenceu Judas a vender Jesus.

31/05/10

Sextilha

Se você sabe que o que tem a dizer fere
e, no entanto, não se importa em dizê-lo,
visto que dói-me na medida em que é certo,
e o que é certo não o é antes de ser justo,
por que o meu nome e os pedidos de perdão
por ter feito algo sem dolo ou culpa?

25/05/10

Nada além da terra*

A maturidade me confere a certeza
de que inelutavelmente hei de morrer sozinho
o que não me impede de desacatar
toda essa lustrosa pusilanimidade ciorânica
de cujo maldito dogma leguei a "douta" instrução
de que forjei-me um eleito a soçobrar no jorro ocular
caso abrace aflito o que de vida bóia ao meu alcance
e que apesar de aflito e de exausto e da escassez
estendo na palma o que de vida ainda alcanço
a você que não tem nada além da terra firme
que de firme não tem nada além da terra.

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* esboço.

04/02/10

De cabeça

Na fossa. No subsolo do esgoto. Tão abaixo que nem a ideação suicida alcança. Engasgado de escuridão. Que fazer? Tristeza edemaciada. Oco da envergadura da fobia de Allen Shawn. Ouve não ter motivo pra não dar vazão à depressão. Revisita principalmente imagens da filha. Depois a de uma menininha portadora de epidermólise bolhosa. Tenta reagir. Descentraliza-se. Reage. Sobe um degrau. Titubeia. Mas a mãe precisa dele. Irmã. FILHA! Sobe mais um degrau. Agenda consulta com um psiquiatra. Inicia o tratamento com 80 mg diários de Fluoxetina. Inicia psicoterapia, todas quartas. Precisa parar de encher a cara. Depakene. Retoma a rotina e o expediente, entre um efeito colateral e outro e outro pior que o efeito. Sobe mais um degrau. Abraça a filha. “Te amo, pai.” Joga Mario com ela e jogando, sobe uns dois degraus. Refestela-se num sono menos trêmulo. Sonha. Esfola o cotovelo nalguma maciez. Sobe além. Desperta em horário comercial (normal, conforme reza a cartilha da felicidade). Toma a seco sua Fluoxetina e engole mais um degrau. Vai alto, e de cima de si, pula de cabeça na vida e não mais se levanta.

29/10/09

Breve definição de "ateísmo"

Os teístas — notadamente os neopentecostais e católicos cançãonovianos — são condicionados a corromper as premissas antes mesmo de se esboçar a propositura do debate. Para eles, todo ateu é inimigo declarado de Deus; logo, desqualificam-no de antemão*, embora ateísmo seja simplesmente a postura adotada por quem desconfia da existência de qualquer atividade oriunda diretamente daquilo que designam de entidade sobrenatural imperante acima de qualquer suspeita.

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* O fato de eu não ser um deles implica que sou CONTRA eles, não importa qual seja meu argumento, juízo de valores, contexto etecétera: municiam-se do truculento reducionismo arbitrário.

23/10/09

Esboço do "Manual Prático do Terrorismo Ateu"

Nunca, em nenhum lapso da história encardida (e documentada) dessa lambuzada espécie, houve tamanha oportunidade para assumir-se ateu. E tal compromisso não se restringe ao ato de dizer-se, mas ao de começar a agir. Peroro em tom de candidato a presidente de DCE intencionalmente. É a ocasião adequada para sair do armário e quebrá-lo a fim de anular o retorno. O hype (leia-se "coletivo para grunhidos neopentecostais") no Twitter: o ateísmo é mais uma outra religião. Os ateus tornaram-se mais intolerantes que os religiosos e nhenhenhem.



[respira]

Tente pensar por outra via. Use a inteligência alternativa. De medida para medida, a pretensa doutrinação atéia demonstra-se razoável, diplomaticamente pífia, pois há quanto tempo religiosos das mais variadas estirpes massacram a humanidade e extirpam a concorrência, digo, ateus? Até parece que há um templo ateu, um canal de tv ateu, novelas atéias, programas, passeatas, impressos, ongues, disciplinas atéias inclusas na grade curricular das crianças, ateus lavagencerebralizados a abordar transeuntes e distribuir-lhes panfletos. Quando chiam que estamos diante duma iminente ditadura atéia, essa cena tragidramática é exibida na minha cachola. Exagerada, mas concreta quando invertida sua polaridade e devidamente cristianizada. E a afronta dispensa sutileza, pois deve recair principalmente sobre cristãos reformados, e nem preciso elucidar os porquês. Ah, vá. Ah, vão. Fff. Noobs.



[respira]

Os teístas (cristãos) pervertem aquilo que lhes deixa acuados. Impulso de bichanos amedrontados. Reação instintiva daqueles que se valem da desculpa mais obsoleta para se vangloriarem do ato mais covarde já visto: precisar de uma divindade para existir, justificar a própria existência e a morte. Desde que humanidade é gente e de que povo é massa, a religião tem controlado tudo por aqui. É tempo imemorável. Talvez tão antigo quanto a origem da matemática. Certamente mais antigo que a arte de grunhir, à qual Saramago reluta em aderir.



[respira]

Prove-me qual desgraça a sua religião não cometeu que lhe confesso a qual deus oro. É assim que a coisa deve funcionar: hoje, nesse momentinho bosta, pois desde incalculáveis ontens as religiões matam, e aqui tomo a acepção bruta e pragmática do verbete e a aplico a um leque histórico cuja dimensão pavoneia estaturas sobrenaturais. A religião mata.



[respira]

Ainda. Em pleno HOJE. E um dos motivos é: você, que é ateu acanhado, não sai do conforto do armário, por “n” motivos, claro. Qualquer analfabeto de espírito, bastando-lhe sã consciência e um clique no tempo, sabe o quão implacável e tenebrosa afiguram-se as conseqüências ensejadas por tal disposição. A religião legitima qualquer monstruosidade, inclusive assegura o direito de criar o seu monstro metafísico pessoal. Não só garante, fomenta! Vê beleza nisso. Mais que Mutarelli vendo a poesia em carne e osso em vermes devorando sua própria carcaça. A essência (não gosto desta palavra) da dignidade humana depende do amor irracional e imaturo duma invisível e improvável idiotice indelével.



[respira mais fundo]

Deus satanizou a hombridade humana. Note-se que aqui emprego a “blasfêmia” em sentido estritamente bíblico. Mas a religião escreveu a história. Definiu as regras. Rasurou todas as possibilidades de exegese, semântica, lógica e bom-senso. “Ah, mas você tá exagerando, tá de mimimi.” Mimimi é a mamamãe. Desde que humanidade é gente, religiões influenciam e determinam tudo, sobretudo o que não existe. Oficialmente, o ateísmo organizado (leia-se “descriminalizado”) data de pouquíssimo tempo. Você, religioso, temente ao seu personal imaginary friend, há milhares de séculos detém o direito de ir e vir. Tem-se a impressão de que você sempre controlou tudo. Ocorre que hoje, mais do que nunca, você perdeu o controle, inclusive sobre seu leal e dócil amigo. Chiar que ateísmo é (intolerante) como qualquer teísmo é afirmar que ambos sempre andaram LIVRE e EXPLICITAMENTE lado a lado. É ver ateus cercando transeuntes em par de igualdade, numa hipotética e freqüente disputa com os “demais” religiosos. Durante séculos, desde a era em que nem sequer a memória existia, você vem corroendo a paciência, empurrando goela abaixo o que deus lhe fala. Doe um pouco de sua preciosa atenção dedicada ao "Anônimo de Mil Patentes" e ouça o clamor de um reles bandido condenado à mesma "cela" em que incontestavelmente trancaram Chaplin e George Carlin. Falo contigo. Com todos. VOCÊS se encontram em uma igreja, templo, sinagoga ou terreiro... onde lhes aprouver. E os ateus, que se encontravam às ocultas nos becos da existência, disfarçados de clérigos?

A religiozice escreveu deus. Arriscado conjugar ATEU no plural, pois somente agora um ateu confesso ouve ecoar um “sou ateu” (um pouco aliviado), de outro ateu, que se sente à vontade, digo, menos desconfortável. Presumível reflexo pós-traumático de quem vem aceitando o debate, desde que o mesmo funde-se em MEUS valores, MEUS padrões, MEUS estereótipos. Vamos discutir religião, mas deixe-me incumbido do encargo de selecionar e afiar as lâminas. Aliás, permita-me definir o que é lâmina e o que é duelar. Tenho traquejo nisso. O quanto-como-onde-porquê. Deve. Deveria ser justamente o contrário. A história escreveu a religião. Mas não o é. O ateísmo é tão remoto quanto o sentimento apelativo ao extraordinário. Bem como qualquer outro animal, o ser humano NASCE ateu.

A ausência da idéia da existência necessária de um deus precede o esboço de qualquer outra idéia. O homem, em sua essência imaculada, não precisa de deus algum para caminhar. Saia do armário e o quebre. Sim. De posse da sanha clichê. E mande às favas o primeiro carcereiro de Cresus Jisto que lhe importunar, porque respeito a gente dá e esbanja a quem não desacata a própria cerebralidade. Até Augusto Cury, o Michael Jackson da auto-ajuda brazuca, reconhece o seguinte axioma: "a dúvida é o princípio da sabedoria." Assim sendo, orgulhe-se de ser ateu e comece a reescrever e rasurar essa longínqüa estória.

O nome de deus só vale a pena se pronunciado em vão. Seja panfletário. Confeccione camisetas estilo Che-PC-do-B-aboinado-arranca-suspiros e mande brasa. Se possível, mande bala. Crie frases lugares-comuns de impacto e em alto-relevo. CHOQUE empregadas domésticas Made in IURD. Distribua sua cartilha na porta de escolas, bancos, igrejas e delegacias de polícia. Ir preso nada! Não deixe o desânimo lhe abater. Aproveite para catequizar os detentos-camaradas-velhos-de-guerra. Crentes atuam é aí! Organize rebeliões. Desorganize caravanas rumo à Canção Nova. Piche muros. Piche andarilhos. Piche sua mãe, pois tenho certeza, a mesma que ela tem em deus, de que ela é católica. Passe trote na casa de pastores ou coisa parecida. Caso queira, sei o número do celular daquela mutação medonha resultante da cruza de Amado Batista com Fábio Jr: o padre Fábio de Melo. Que tal?

Prepare seu baseado com uma folha do Alcorão. Não contenha a sanha, não faça como aquele tal de Varg Vikernes que se contentou com atear fogo em igrejas. Reúna a galera e toque o movimento tocando fogo e fogando toco em sinagogas, mesquitas, orfanatos, creches, fazendinhas de recuperação de drogados e nhenhenhem e não poupe padarias: é lá que fabricam o corpo de Cristo. Moleste o padre de sua paróquia "em meu nome!" Piche mais uma vez o barraco da empregada doméstica batizada no fogo do Espírito Santo. Mije no fogo do Espírito Santo. Apague o pavio curto do homem-bomba. Tire o punhal escondido dentro do seu boneco do Fofão (eu sei que você tem um!), corte os pulsos e ofereça seu sangue a Richard Dawkins. Aeee. Bravo! É justamente isso o que eles MAIS TEMEM. Eis aí um ponto fraco de deus – se não o maior. Infle o peito, incorpore o romantismo viking de Johan Hegg e vocifere: "Eu sou ateu".

07/10/09

Deus se manifesta, age através de Seus filhos (stub)

Saio rumo à padaria mais próxima pra comprar pão de queijo. Mentira. Mero pretexto. Pão de queijo é coisa de viado. Na verdade saio afoito para a Sex Shop a fim de aproveitar a liquidação de vibradores de poliuretano desenvolvidos pela NASA. Na volta, poucas quadras adiante, um pivete remelento me aborda e anuncia o assalto. Dois alunos uga-uga de jiu-jitsu passam observando, e interceptam o criminoso. Imobilizam, tabefeam, subjugam e depois escorraçam o pirralho. Resumindo: são Anjos da Guarda. Deus os usou para me salvar daquele vilão. Logo, convém constatar que aquela criança foi instrumento do Cramulhão, e o meu bom senso e ciência de causa devem ignorar o fato de, malgrado ela ter apenas 9 anos de idade, já ser usuária de crack, não conhecer o pai mas saber que a mãe está presa. Todavia, por razões sobejantes, nada disso influenciou seu comportamento. O católico ao qual relatei o ocorrido assegurou: “Viu? Deus dá provas de Sua existência todo momento, e você reluta em crer na Sua existência. (...) Ele usa os outros para nos defender do Demônio. Reconheça!”


Deus é justo.


Deus salvou minha pele. Ele me ama e sabe o que faz. Incondicionalmente. Aleluia. Ama a todos, aliás. “Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.” (Salmos 90,7). Agradeci pela solicitude dos guardiões. Em sinal de gratidão, partilhei os pães de queijo, peguei o número do celular deles e fui por aí. Curtir o vibra, só na placidez do dia seguinte.


Os dois Anjos passavam diante da loja em que eu havia adquirido meu mimo pouco tempo atrás, até que um deles sinaliza: “Saca a porção de bichas lá dentro!”, e seguem, putos, rangendo os dentes. Eles vão na cola de uma delas, que se retira livre-leve-solta do lugar. Dobram a esquina. Enquadram-na. Imobilizam, tabefeam, subjugam e depois escorraçam a biba. Uma viatura aparece, espevitada feito uma Drag noiada. Os PMs descem e prendem os agressores bibafóbicos.


Decorrido o fuzuê, queixa na Depol e blablablas cediços, o referido gay vai embora. Ufa. Enfim em casa. Senta-se. Pega a latinha, pede a um moleque de 9 anos pra acender a pedra, e conta:


“Viu? Deus dá provas de Sua existência todo momento, e você reluta em crer na Sua existência. (...) Ele usa os outros para nos defender do Demônio. Reconheça!”

13/08/09

O querubim safado

Alguém já se perguntou se anjos benfazejos não passam de dublês invisíveis que deixam de nos substituir quando a pirraça lhes aprouver?

E não é só isso

Quando parafusava o vedante pra porta, pretextando impedir a entrada de anjos, um deles me pisa na mão quando apertava a última contra-porca Dor não senti, só um formigamento manco, pois tais seres, além de portarem o peso da ingenuidade e viverem descalços, têm os pés macios e massageantes, como se metodicamente recebessem imersão em urina humana — a qual contém o composto uréia, cujas propriedades hidratam e cicatrizam Só sei que segurei sua canela e ele não conseguiu içar vôo Foi fácil detê-lo ali, dado o seu não-peso Já em pé, flertei com ele, e fiquei de quatro quando o ouvi choramingar deixe-me ir, não me machuque, tenho de ir senão o bom da boca vai se zangar comigo, vai me castigar, descer a auréola até minha cintura e me obrigar a bambolear, caso me dedure

A voz infantil e farinelliana daquele azulejo alado me deixou com uma baita ereção, e sei que ele, quando sentiu meus calos em suas canelas lisas, fremitou-se duplamente — sentindo tesões peniano e vaginal simultâneos —, reação natural, considerando a perfeita natureza hermafrodita dos anjos Trepamos naquele dia mesmo (penetrei-o com a dureza de quem entra no céu; penetrou-me com a moleza de quem entra no inferno), aproveitando a ausência de minha esposa, filhos, enteados, meu bode de estimação (levaram-no pra vacinar), testemunhas de jeová e demônios retardatários ///saibam que, a partir das 24 horas, os anjos se transformam em demônios/// Anjos personificam o bissexualismo: apresentam uma vagina ao ponto, seja no quesito aromático, seja no quesito lubrificação, seja no dilatação e fertilidade precoce (alguns sofrem de dismenorréia, inclusive TPM), ademais têm uma pica e saco adocicados: ideal pra quem enfrenta aftas Daí adiante decidi retirar a rolha do ralo, pois assim o anjo adentrava(-me), com a visível vantagem de ele, sendo invisível, mesmo sendo descuidado, não haveria, ao menos de sua parte, como imprimir pistas da prevaricação Nosso fito era trepar-retrepar-treparretrepar, sempre no mesmo horário e nas mesmas diversidades posicionais Nada podia ser melhor que chupar um cuzinho angelical, considerando o fato de nunca defecarem — salvo as notas musicais oriundas dum canto gregoriano desafinado

Certo dia, combinamos de nos encontrar às 15 horas, a fim de rezarmos um rosário ornado com dentes da dentadura dum fariseu (asseguram os gibis e Mel Gibson), mas ele desconversou Percebi de cara o improviso de justificativas das mais enxovalhadas, o que me levou a suspeitar de sua fidelidade — da qual já desconfiava desde a noite em que um demônio fez sua caveira Naquela noite, julguei dúbia aquela informação, mas não por desconfiar de demônios, e sim porque minha esposa havia me feito ingerir maisomenos 120 miligramas de Diazepam enquanto roncava, por conseguinte fui induzido a um sono pétreo, o qual me levou a considerar tais alertas como sendo meros arquétipos de um sonho qualquer Aproveitando o ensejo: quem já teve a sorte de sonhar com as barbas de Freud a lixar a nuca? Humm, De-li-ça! Anjos só têm um defeito: neles não brotam pêlos muito menos barbicha Será que Michelangelo acertou ao retratar na sistina um deus barbudo daquele jeito? Humm Prefiro a barba do deus de Michelangelo à barba de Freud, na certa

Preciso atribuir mais credibilidade aos demônios Quanto preconceito de minha parte! Flagrei, no fundo do quintal, meu bode xodó currando o ar, cujo arquejo era idêntico ao do meu anjo-biscuit

Além do flagra, o anjo me confessa uma miríade de casos, e o pior: me garante estar prenhe de um filho, MEU Asseverei só assumir a paternidade depois da resposta genética, ou seja, do afamado exame de DNA (pensei comigo: como seria possível aquele exame provar algo, em face de ser o material genético do anjo invisível?) Instei no exame de DNA, claro

Decorridos 12 meses, período gestatório completo de um querubim, ele me chega com o suposto filho, embalado num velocino de estrelas de davi O menino, era um menino!, tinha nascido invisível, em decorrência dos genes de caráter dominante do anjo — ufa Fui fazer, aliviado, um cafuné na cabeça algodoada do pequenino, a qual encobria dois chifres-bebê

— Ué, o que são essas duas saliências na cabeça do guri? — teimei, ao passo que o anjo responde, em afinação de cítara perversa

— Pois é: você ainda duvida que ele é seu filho?
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Por minha amiga Nina Tuklam.

30/07/09

Ao fim de um dia

Permitam-me, deixem-me que eu apresente Maslav Daslov. Um obscuro funcionário de uma repartição ministerial. Vinte anos de serviço, nenhuma promoção, nenhum êxito digno de nota. Calvo, baixo, quadrado, de grande barriga, fato cinzento, peúgas passajadas, vida cinzenta, futuro irremediavelmente cinzento.
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Uma noite*, meteu-se-lhe na cabeça que queria mudar de vida. Não podia suportar, por mais tempo, a sua amorfa existência. Decidiu tomar uma atitude radical e, com uma luzinha nos olhos, pensou num grandioso plano. Ora, o plano era a tal ponto brilhante que todo o sangue do coração lhe subiu à cabeça e um suor frio deslizou pela testa.
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Assim, na manhã seguinte, entrou na repartição e desatou a morder ferozmente os colegas, um após outro. Fincou os dentes nos braços, pernas e orelhas de telefonistas, secretárias, contabilistas, assessores, porta-vozes, relações públicas, engraxadores e assim por diante, acompanhando cada mordedura com terríveis e agudíssimos uivos. Mas Daslov não se limitou aos níveis inferiores da hierarquia, também mordeu o chefe de secção no nariz e deixou dois dentes pregados na canela do director. Estava lançado; nada nem ninguém o poderia deter. Finalmente encontrara a sua vocação, um modo de vida bem sucedido.
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Os resultados do plano superaram de longe as melhores expectativas. Ao fim de um dia, tinha mordido todos os colegas, era o funcionário mais respeitado da repartição e a sua fama galgara já as mais imprevisíveis barreiras. As altas chefias desceram dos largos gabinetes para o felicitar com um sorriso do canto direito ao canto esquerdo da boca. Foi automaticamente promovido e recebeu ainda uma gordíssima bonificação.
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Mas não terminou aí, como é de presumir, a história de Maslav Daslov.
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* A noite estava quente e húmida, e as copas das árvores flutuavam pesadamente como candeeiros mortiços. Creio que isso determinou os factos subsequentes desta história.
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(Do blogue de Rui Manuel Amaral).

29/07/09

Trístico


(da série Engavetados)

Dois tapas: um no branco no preto e outro no preto no branco

Constranger-me-ia sentar à mesa com tanta gente detentora de elevado padrão de vida. Não que com isso ateste experimentar um agachado status, mas porque não vislumbro idoneidade de minha parte para distinguir um padrão de outro. Não me compete. Imprudência delegar a meus juízos a tarefa de manifestar orgulho ou vergonha, seja de qual for o padrão de vida, se detenho em meus domínios um padrão de morte vigente.
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Um homem comporta idéias; um corpo, casulos. Grandes idéias não se comportam. Cada um com sua idéia larval aspira à patente da mariposa, embora não consiga ir além do pó nocivo pousado em suas asas. A mariposa voa e ao mesmo tempo transporta a conseqüência tóxica que reveste e hidrata suas asas. Só sobe se aceita levar o veneno a cair dos céus – sobre os olhos dos que não voam além do que vêem.
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(da série Engavetados)