11/07/2007

A síndrome de Nou

– Pai-ê: o senhor vai querer qual sanduba mesmo?
– Traga o maior, estou faminto. Não demora, senão ele esfria e eu esquento.
– Só vou me encontrar com uma pessoa especial e volto loguinho.
– Cuidado.

Rosaflor e o viúvo Nouneime, seu pai, mudaram-se pra lá sexta-feira passada. Não conheciam ainda nenhum morador daquele condomínio e, quem dera!, vice-versa. Rosa cotidianizou-se em facul-lar-net / net-lar-facul; Nou tonificava a preocupação em proteger a integridade daquela. Raramente saía dessa e do apê. Punia-se, vivendo dentro duma bolha de concreto, porque não conseguia diligenciar certos atos e escolhas de Rosa. Não se conformava que um dia ela adotaria o mundo e o chamaria de pai, não se conformava com o fato de que o pátrio poder não dispusesse do direito de coibi-la de experimentar a vida sexual. Nouneime flagelava-se. Dentro da bolha. Anos a fio.

Rosaflor avisou ao pai que naquela noite iria lhe apresentar seu príncipe encantado, Grosgolom, guri o qual namorava firme num site de relacionamento em Second Life – embora nunca o tivesse visto tridimensionalmente em pessoa. Pra dizer a verdade, Rosa nunca namorou sequer ficou com ninguém, em nenhuma outra circunstância. Nunca fora tocada por um macho diverso do pai. Sendo assim, tudo o que o cinqüentão do Nou mais temia ali chegou (justificadamente) à tona: ele portava a síndrome de himenolatria crônica cumulada com uma espécie de complexo de Electra subvertido*, mas ninguém o sabia, nem mesmo ele próprio, pois os sintomas se desincubaram pela primeira vez nas linhas a seguir.

Alarmado diante do risco de sua planta unigênita correr perigo de fato, Nouneime tropeçou nas vertigens e cambaleou até conseguir um abraço da parede. Encostou nela o braço direito horizontalizado, acolchoou os olhos mareados, e começou a assistir, na primeira fila, a exibição sucessiva de paranóias diversificadas (vivenciando as hipóteses, antecipava o sofrimento) e toquetoquetoqueteou se o tal namorado da filha não passava de um safado drogado (momento em que sua idade caiu para a casa dos 45); pensou se o tal amor da filha não fosse um daqueles tarados hábeis em predar usuárias de internet (daí sua face descolagenada e cabeça grisalha se ajustaram à de um homem de 37); visualizou um sujeito a trazer consigo uma caravana de deéssetês e contaminar a filha, além de engravidá-la e escapar das obrigações (sua idade despencava para 22); depois se agachou, subjugado, ao hipotetizar a própria filha teclando meses a fio o grelhinho em frente a uma webcam para um ogro suplicante, “um ogro, meu deus, tu-tu-tu-do menos um ogro” – conclui, com respaldo no nome tolkieniano do pretendente (daí uma estrutura atlética se desmoronava mais rápido que aquelas roupas senis pesadas, donde um bebê se desenrosca com dificuldade e sai engatinhando).

Hic et nunc, ouvia-se um meninóide de meio metro esgoelar um senhor buaaaá. O berro sirênico começou a incomodar – e preocupar sobremaneira – os moradores do andar e prédio inteiro, os quais chegaram ao alvitre de adotar as devidas providências, graças à iniciativa do morador do 666: um blogueiro insone carente de realidades inéditas.

22 horas na pinta. Rosaflor e Grosgolom nem se dão conta da viatura, da ambulância e da Van do Conselho Tutelar estacionados na porta do edifício. Entram, lesadamente apaixonados. Rosa estranha o modo como o porteiro a cumprimenta árido. Rosa e Gros entram-saem do elevador e seguem pelo corredor cujo apartamento se achava seguindo o murmurinho. A porta do apartamento se notava aberta de longe. Lá chegando, Rosa e Gros depararam-se com um monte de gente lá dentro. Uma vizinha-mãe aborda Rosa, sobre o capacho “Welcome”.

– Você mora aqui no 667, né, mocinha? Como pôde?... – ataca, abismada.
– Moro sim, que houve aqui?, algum ladrão entrou?, cadê meu pai, ca-ca...? – trêmula, questiona e se escora na mão de Gros, enquanto um gambé se aproxima do casal, carregando o bebê-alarme no colo.
– Quanta irresponsabilidade! A senhora saiu e deixou seu filho sozinho, pelado, cagado: em péssimas condições. Além do mais, veja só, ele não cala a boca um minuto, há horas berrando. Deve estar faminto. A senhora está presa em flagrante delito, por abandono de incapaz. Faça o favor de me acompanhar até a 12ª Delegacia Seccional...
– Meu filho??? Ma... deve ser um engano. Ou devo estar no apartamento errado – pensou ela. – Não, já sei: é uma pegadinha, né, ahn, fala aí? Vocês, hein! Aposto que foi idéia do...

Num dado instante o bebê se cala, de súbito, estica um dos bracinhos ricos de dobra e baba de contentamento quando alcança o chaveiro emborrachado do Shrek, brinde ganhado com a compra do maior sanduíche, da mão do genro Gros.
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____________
*Grosso modo, o distúrbio só viria a se manifestar diante da garantia ou proximidade de desimenização da filha biológica. Mas, no seu caso, a doença haveria de progredir com pujança: tendo só Rosa de filha, vivendo só com Rosa, o zelo-ciúme-amor e paranóia de posse superavam os padrões normais, logo estimulariam facilmente uma certa glândula que – só – ele possuía, responsável por desencadear um processo de rejuvenescimento quase instantâneo, em todo o seu corpo, rejuvenescimento este impossível de se retardar.

11 comentários:

cássio amaral disse...

gostei da sacada o final é muito bom.

Paulo Castro disse...

É uma merda quando nos comparam com outros autores, o leitor com isso quer mostrar que sabe o que deveras não sabe ( google ) ou nos diminuir diante de vultos bronzeados, os laureados, não as bundas que tapam o sol com a pederneira.
Sabendo do risco, deixo um campo aberto, com dois goleiros, de um lado, Voltaire e a alegoria fantasiosa, de outro, Nelson Rodrigues e a família buscapé versão cyber-coffe. E como o juiz tem que dar pra ambos os lados, fico no meio de campo com um sujeito chamado Will Self: ele já fez nascer buceta atrás do joelho de um másculo viciado em academia.
E pra que esse campo ?
Pra vc fazer embaixadinha com "as moral", como faz aqui. Superlativo mesmo.
Apenas fantasiei algo aqui: o menino coloca a mãozinho entre as coxas da filha-mãe e arranca o cabaço em sangue, coloca na boca, engole e morre.
Tragedião freudiana, claro. Mas é meu torto vício, vc sabe.
Beijos.

http://vazamentosdevapores.blogspot.com

Anônimo disse...

Querido!
Fiquei feiz ao receber o convite para ler teus escritos. Não pare mais, sinto falta da tua inteligência,habilidade e imaginação fértil de uma criança que esqueceu de ser ingênua...
Gostei, gostei!!
bjo
Dani

jorge disse...

A desinvernada - pela qual não me encarapuço em tê-la provocado - a desinvernada serviu para desagravar o autor, esse RW, que, às socapas virtuais, era cochichado como ora despido do seu ex-extraordinário talento literário, a ele concedido por Cíclope, e por ela mesma retirado, por pirraça, ciúme ou outro capricho de musa - quem as entende? Este conto desmente as aleivosias dos covardes detratores. RW não se converteu em um apenas e tão-somente copiador de bulas jurídicas padrão; rato de Fórum. O Holden Caufield amoral e iconoclasta ainda sobrevive dentro do atual terno cinza-fosco dele. Mas - seria intencionaL? -, desde o primeiro diálogo, esse aqui leitor inferiu a trama incestuosa e as referências aos Oscar-Gray & Dorian-Wilde. Estou satisfeito. Garçon, por favor, a conta.

L. Rafael Nolli disse...

Ricardo, me chamou a atenção a pista deixada sobre a forma que a história está acontecendo e sendo transformada pelas palavras - pela força de cada uma, o que tem sido uma de suas marcas. Achei a metalinguagem interessante - essa coisa de repente a história ir se transformando enquanto contada (e o autor, marceneiro, peão de obra ou chefe de cozinha, ir dando umas pistas sobre o seu serrote, sua pá e enxada, sem tempero). A linha que se segue sempre trazendo uma nova pista, uma novidade. Porra, gostei!

Ana disse...

até onde chega o corpo mental de um cidadão, né não?

ducaralho eu já disse que é.

agora, você virou padrinho imediato do espaço... tente honrá-lo me deixando com cara de besta sempre.
e divulgue. tudo pela literatura boa-boa literatura, nesse mar de tanta coisa.

beijo!

Grazzi em ContRo disse...

Adorei entrar na sua bolsa amniótica...

mariza disse...

hehehe... só você pra lembrar da van do conselho tutelar. muito, muito excelente. detalhista precioso.

*quero meu ingresso djá, e uma mordida na pinta, of course... hehe*

beso.

Fabrício Brandão disse...

Bravo, Ricardo! Tua narrativa instigante e provocante mexe com o palco de nossas misérias. Obrigado pelo convite feito lá no orkut. Além disso, estive lendo-o através da Ana Peluso em seu fantástico trabalho de disseminação cultural. A mim, então, restam as imagens de teu belo conto aqui, agora, rondando minha mente acelerada. Bravo!

Abraços e sucesso!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Caramba Ricardo, este lance da regressão do sujeito rejuvenescendo foi uma sacada e tanto, seus contos são muito bons, um trabalho lapidado, preocupado com a linguagem.

Abraço.

gato disse...

Rapaz, conheci este conto e vossa pessoa no blog " O Conto do Mês", tive que fuçar a fonte, né? Prabénssssssssssssssssssssssssss.
Abs, Luciana