11/10/2006

Emenda da exordial



Três dias de festa. O gosto a remanescer na boca oscila entre o de uma buceta com prazo de validade expirado – embora adulterado para o consumo – e o de uma pica com três dias de estadia onde a higiene é persona non grata. Vacilei. A gengivite titubeia mas sangra em pé. A pasta dental gruda num chumaço de cabelo sei lá de qual procedência, obstruindo os fiapos a despencar da Gillette sob o jorro redivivo. A casa inteira urinada fede qual um bretão. O roedor recusou o queijo mas comeu um pedaço da ratoeira e saiu ileso: “olha ele aí, lambendo o arroz com galinha que vomitei no primeiro dia de festa”. Um objeto esquisito debaixo do travesseiro de minha filha: bexiga não é. Blergh cá, blergh acolá. O sapatinho da boneca sumiu: minha descendente vai ficar puta comigo. Conseguiram deixar guimbas de cigarro até dentro dum frasco de Nescafé dentro do congelador. Alguém vomitou dentro da canequinha de Maria Laura. Ou cagou mole. Torrei a grana do aluguel a qual custei a extorquir do agente passivo que corta meu cabelo e cuja boca nicotinada quase corta minha buça. Ou pica. Sei não. A diferença entre falo e buceta é por demais sutil. Meramente conceitual. O da puta filho sorveu o último filete de mel de minha glande gladiadora. Burro. O viado estragou a maçaneta da porta do banheiro. Ninguém mijava-cagava sossegado. Precipuamente os dotados de pinto. Quem adentrava, a bicha traçava, com sua sunguinha vinho titular do cu piloso-gostoso. E o rato lambe a roupa vomitada a qual estreei com uma puta ou com um filho da puta. Burro. Portanto me consolo: burrice é virtude onde quem pensa perpetra ilicitude. Nossa. Há um sujeito ali roncando, peladão. Ele assegurou-me: “dormir sem calcinha é muito confortável”. As três noites custar-me-ão duradouras semanas de exorcismo. E as pessoas se preocupam se há vida após a morte. Ora. Pendenga mesmo é saber se há vida antes da morte. A religiosidade incumbe o homem com hipóteses respaldadas em revelações metafísicas, não com a concreção fatual abalizada pelo evento natural. Merda. Agendei a assistência a cinco clientes. Vou desmarcar. Devo canalizar outro pretexto. Vou procurar um pastor. Vou confessar com o padre daquela paróquia. Não. Não consigo me conter se um deles flertar comigo. Só de supor, meu pau se arma com mais dureza que qualquer suposição. A que ponto arvorei. Ah. Só os sujos exaltam a pureza. Bosta. Devo conduzir a paranóia rumo a outro beco. Preciso cessar o xingatório. Cara: não pus aquela camisinha mentolada: Halls pra buceta, sorvete pra cu. O bidê entupido. Na certa, culpa do pederasta tradutor dos efeitos pós-pó: nada supera o cafuné manejado pelo bidê. Todo cu carece de bilingüidade. Humm. Convém canalizar a percepção crítica e anotar uns troços. Esparsamente. Motes: A filosofia abortou Sócrates. A Microsoft deletou Bill Gates. O céu acionou o piloto automático. O tempo perdeu seu Rolex. A empáfia pediu esmola. Maluf havia se fodido pelos fundos, agora nos fode pela frente. A morte marcou cento e cinqüenta e quatro pontos com um Gol apenas. A vida lustrou a foice com Silvo. O cara abalroou a carreta, e o amante, ao lado, morreu. O cara nunca mais bebeu, no entanto chegou ressacado no inferno. No caminho de Drummond uma pedra de criptonita. O amigo imaginário quer ser exumado. A jurisprudência dominante negou provimento a meu sotaque. Um dia de luto foi uma vida de luta. A literatura está impregnada de Ronaldos Espers. O poeta jura ter mais imunidade que um parlamentar. É. Sinto-me. Melhor não. Devo rezar. Mas se reiterar uma mesma oração surtisse efeito, papagaio seria canonizado. Arrazôo-me. Devo me contentar com a felicidade. Aliás, a maior conquista em vida foi ter apalpado em colo o nascimento de minha descendente antes de desacolar a religião. Que ressaca. Vou rebater. Vou anunciar o suicídio naquele boteco antes que alguém proclame meu nascimento. Vou-vou. Lesado. Hipossuficiente. Vultoso. Chupado. Chupante. A par do vômito andrógino. Vou mijar na mesa de sinuca. Vou bradar que quem realmente acredita numa coisa, manifesta desinteresse relacionado àquilo que a ela se relaciona. Lamuriar que a genitora de minha descendente diz que só escrevo horrorosidades (sic a ova!) – porque sou comum, muito mais comum do que aquele frenético a aspirar o cotejo com um Henry Chinaski. Represento apenas uma rasura ao Protocolo de Kyoto, não à obra de desafetos literários ditadores, porque caneta na mão = cu sob ereção. Contudo não escrevo motivado pelo orgasmo: porque rio do leitor ao tentar remover aquilo que nele gruda – e na verdade escorre. Pretendentes devem cessar o consumo da escrita cuja graduação alcoólica prometa escândalo tipificável. As tavernas já não mais se interessam em comercializar a chata aqüosidade lírica, cardápios donde consta a marginalidade egótica, nem os centros de umbanda admitem mais incorporações de Baco. Lado outro, a gaiola literária não mais reserva poleiro banhado em ouro a tantas corujas de Minerva, a saber. A nora de minha genitora atesta razão. Basta à transgressão de massas: esta seara já não mais comporta tantos hematomas privilegiados. A palavra faz jus ao amordaçamento, à maca. Foda-se o rebuscamento arbitrário das próprias razões, a sublimação lexical (a qual pode denunciar a dificuldade de o escriba se relacionar com a linguagem simples, direta, funcional), o arcano, o caciquismo teórico. Quero ser enrabado por um clitóris biônico. Quero alguém presto a drenar a porra que circula em meu sangue escriba, saiba, digne-se. A poesia não sente tesão por mim, pois ela removeu seu clitóris – numa clínica particular, e não numa clandestina. Queria ser um analfabeto feliz; só consegui ser um doutor aprendiz. Caso e separo dia-sim, dia-não: casei com um bumerangue. Esqueço tudo o que bebo, registro o suscetível à execração. Pior que odiar carcaça estruturada por giz acometido de osteoporose, só mesmo se apaixonar pelo exercício da idéia. Para falar de amor, basta-me emudecer o ódio com um pirulito caramelado. Seja você um resenhador de menus. Seja você um societário receoso em adquirir um engradado de preservativos perante o marido. Seja quem não confere valia à significação. Quem crê inexistir o semanticamente irrepreensível. Seja a esposa disposta ao susto com o fato de haver homem bicho – que chupa buceta e tudo, ou o marido a responder que há até homem bicha – que abocanha pica. Aduza e defenda isso: Bob Esponja = versão marítima de The Simpsons. Infle o peito siliconado, e retire a tv do quarto – só assim seu marido dar-lhe-á o devido valor (porque ele descobriu: "homem em casa se tenho um televisor grande e potente???"). Elabore, pela manhã, logo ao acordar, slogans ridentes entoáveis, sempressempre em família. Compre, quando, no vértice do lazer invejável – também – em família, um cinzeiro confeccionado com lata de óleo, porque toda arte – ressalvada a escrita – merece estímulo. Compre outro cinzeiro do mesmo artesão, porque o sujeito precisa financiar a majestade do vício. Não meça sudorese e faça de tudo para o contexto se amoldar à sua língua – e tenha plena certeza: você enfim se fez William Blake. Seja uma puta e ofereça-se para todas suas consortes – estatística aponta: assim uma editora topa. Seja quem não tem crédito no cel. nem no céu. Exerça a procrastinação com pontualidade. Bata uma punheta em nome daquela saudosa amizade colorida. Faça-o, sem hesitação. Suprima parágrafos, crases e casos. Suprima a depressão típica de quem cedeu o lar durante três dias. Dê. Chupe. Dedilhe. Masturbe(-se) com a bucha com a qual se lava a mamadeira do enteado. Aproveite o vômito do amigo e engome o baseado. Faça-o. Estufe o saco. Seja o cara do pau grande a limpar o próprio cu com ele. Sinta-se liberto por não favorecer à composição de nenhuma linhagem a adotar a linguagem. Evite espelhos. Mije sem olhar para a própria urina – ou para a de outrem. Mije sobre a urina do outro. Junte-se ao semelhante.

10 comentários:

Cássio Amaral disse...

Cortante e magistral!!!

Joana Corrêa disse...

u-au!
ricardo, você pega pesado! hein!?
peso dos bons.
maravilhoso!

beijos.

John disse...

já pode lecionar como se usa a regra fundamental da análise. nem anna ó seguia, mas vc é doutor.
parabéns

l. rafael nolli disse...

Cara, duvidei que eu chegaria vivo nesse texto-poema: uma avalanche. Duvido que haja algo tão marginal, ou algo que fale de forma tão explicita sobre o homem se libertar do que quer que seja que o oprima. Tenho que destacar a frase

O céu acionou o piloto automático

pois essa é realmente dimais! Puta que pariu!

Achei que o rato iria entrar nesse conto... Abraços!

Paola Vannucci disse...

será que acabei de ler mesmo tudo isso????

minha nossa

pesado é poco para descrever seu texto....

Denise disse...

Texto robusto esse!

A tua imaginação, criatividade dispensa comentários... Perfect!!

Beijos

Cristiano Contreiras disse...

vke essas sensações do corpo, fala por demais?!

Paulo disse...

A mulher mais gostosa do mundo, sério, lendo vc, outro dia, saudoso dia de uma semana: esse é o poeta das secreções.
Em parte, ela está certa. Em me amar. Assim, ela chegou até você. E você chega até onde ?
Outro dia, reza a lenda uma guerra, figuei aqui em Campinas te esperando.
Sei como é.
Minha ex-esposa mandava me procurar nos bares. E o policial bobo mongo: - Paulinho, ela está te procurando e desesperada.
O "desesperada" é que me tirava o ânimo.
Então vc não veio.
E levou porrada. Aqui a gente brigaria junto.
Vi uma mulher em suas fotos, ela não me deu nojo, mas algum tesão. Sou um consumidor de esposas alheias. Quando arrumo uma pra mim, triste sina da impotência rebelde. É a forma - SECREÇÃO - de fuder com homem querido.
Mas a diferença embrionária entre pica e buceta.
Como faz ?
Trágica morte, piadista vida.
Beijos.

Ricardo Wagner disse...

Paulo: semana que a nós vem, vou, para materializarmos aquele vaivém virtual.

izabel xarru disse...

Fico impressionada com você. Sério. Pela criatividade, pelo jeito (bem) particular de escrever, porque é muito gostoso ler um texto seu, mesmo longo pra Internet.