04/10/2006

5ª sinfonia de Gustav Mahler – Adagietto

À Ana Cristina Mischiatti



A morte alicia até os imortais. Nada adianta se cruzo os braços para quem clama por alimento. O prato. O bolo excedido. O pão mastigado. Tive vontade de depredá-la com o pão duro enjeitado pelo mofo. Devo estender os braços e dá-la as mãos. A morte me acordava como o pesadelo porque não escolhia sonhar com ela. Se escolho não adiar o pesadelo e aceito sua inevitabilidade, sonho. A vida humana não poderia mesmo ser o mar róseo cuja dimensão escapa aos olhos, mas o cadáver liqüefeito, dentro da franzina rosa, microcósmico e onipresente. Posso e devo assumir o matrimônio firmado com a morte em público, local aberto, e apresentá-la esnobe aos amigos a apalpar a cintura orgânica, fundida com tétano. A beleza se afogou por Narciso. Encravo braçadas na lava. A morte merece a serenidade do homem petrificado pelo magma, cujos braços se estendem qual a decisão da pedra. Devo ser a erupção a encarar o dilúvio.


Penso em evadir da cidade natal como se retornasse ao ombro-lar. Nasci na manjedoura araxaense, porém devo ser coroado com espinhos londrinenses: diabo de casa não peca. Os próximos a mim se distanciam; os longínqüos assumem presença insuportável. Há quem corra da morte, enquanto tento alcançá-la com sapatos engraxados. Apaixonei-me pela distância, não pela ausência. Assexuei-me, como se assim não traísse a mulher-pixel. Preciso morrer virgem, tão imaculado como o dilema irresoluto. Sucumbir como o advogado que conseguiu conciliar o espaço/tempo permeado pela lógica sem intervenção judiciária. Haverei de ser enterrado pelo par de mãos calejadas com segurar promessas. Devo fenecer como quem se enojou do próprio corpo engendrado por desídia canônica.


Quero ser memorado como a praga erradicada sem vítimas inocentes. Deixe-me em paz com meu adágio: prevarique ao dizer que mereço silêncio. Deixe-me cabular o compromisso firmado com a vida. Vou rasurar todas as cláusulas. Prometa-me que poderei apodrecer ocioso sob a monotonia uníssona do vício progressivo. Afirmam ser eu covarde sem ao menos possuírem espelho em casa. Pesado demais quando as condições da realidade apenas me permitem ser alimento do lapso. A morte me tenha. Não como aliado tampouco como corvo subserviente, e sim como a penumbra que a pertence e agora retorna, nua, transpirando orgasmo. Quero a morte, não a transição anestésica catequizada. Desejo a morte como quem entoa ao câncer impenetrável pela morfina. Permita-me. Existir me dói demais se só me resta a existência. Devo acatar a voz do sono-sentinela; coexistir com o nada improtelável. Deglutir a fruta que debocha da eficácia do veneno. Ser o fato-foto em preto & branco.


A loba me amamenta porque não pôde conceber lobos: a vida não poupa a vida. Devo partir pois não preciso atribuir ordem de grandeza à experiência. Vou ao apodrecimento perante inimigos autoproclamados e condecorados pelo júbilo triunfal de participar de meu fim, afinal. Morrer sem temer o desassossego gerado pelo necromante, sem temer a exumação de minha palavra: confundida com a do sublime literato errante. Quero ir ao encontro da fadiga precursora do sono safado. Como quem custeou a prole vendendo a memória incrustada em lápide inflamável; como o verme pisoteado pela imprudente curiosidade infante, pelo pé tamanho 35 a repisar sobre o resfolegar do vício, pelo passo desengonçado do transeunte rendido pelo telefonema anos-luz da carne. Ir como quem (a)priorizou o adeus retribuído com o beijo eletromagnético; como quem apoderou-se da foice da morte e a matou com o vigor do vivo.


Inexiste mérito na revolução suicida (martírio) se há o que a natureza (desígnio) já criou. Quanto mais longa a existência, maior o verme que dela se alimenta. O diploma não precede: omite a vocação da lápide. Analfabetiza a direção da inevitabilidade. A natureza da larva excitada prenuncia a lua de mel. Inexiste novidade se a natureza gerou o termo. A vida trapaceia: prolonga-prolonga-prolonga a despedida de solteiro, enquanto a morte me aguarda toda depilada para as bodas de diamante.

9 comentários:

giselle disse...

"A morte me acordava como o pesadelo porque não escolhia sonhar com ela"

RW, RW,
Hoje tive um dos piores pesadelo da minha vida. E acordei com o rádio relógio tocando a música chororô tema do Closer. A sorte do dia no orkut? "Todos os seus sonhos serão realizados". Primeiro site a visitar antes de apagar os scraps? O seu... A frase acima, putz, traduz. Traduz metade.

Vou terminar de ler o texto.


E o livro?
É o meu sonho ganhar o seu livro autografado!


Bjs, Gi

Cássio Amaral disse...

Vivo morto ou morto vivo!!!

Joana Corrêa disse...

preciso ler de novo...
comento mais tarde! rs.
beijos.

Ana Mischiatti disse...

Fez da menina a musa do artista. Ela viu nele certa doçura e a beleza de um menino-homem, talvez ele nem quisesse isso...
Wir Frauen lieben mit unseren Ohren.
Beijo

Ricardo Wagner disse...

Ana Mischiatti (Ich muß Sie hören, um diesen Namen in meinem Ohr zu buchstabieren!) Seien Sie meine Frau, weil, wenn Sie nicht sind, ich nicht der wenige sein kann daß ich bin...

L. Rafael Nolli disse...

Poxa cara, aprecio essa sua habilidade3 escriba, além de doutor em Mario World e Fatal Fury, vc tem uma escrita partcular mesmo. Porra a vida trapaceia mesmo, sempre. Gostei da sinfonia!

célia musilli disse...

Isso é o que se chama um texto lapidado...e pode vir aqui pra pisar nos espinhos londrinenses, tem algumas flores tb..nem preciso dizer, não é?? rss um beijo pra vc e pra minha amiga Ana...E gostei muito de falar com vc e o Cássio por telefone....byee, até breve.

Anônimo disse...

"A morte me acordava como o pesadelo porque não escolhia sonhar com ela."

"A vida trapaceia: prolonga-prolonga-prolonga a despedida de solteiro, enquanto a morte me aguarda toda depilada para as bodas de diamante."

MOLTO BUONO!
aquele abraço,
Aroeira.

izabel xarru disse...

É de calar a boca. Vai pra dentro, muito bom mesmo.