23/03/2007

Mono e Poli

Depois de ouvir a última sílaba de seu patronímico, Monodáctilo avisou-a, com seu dedo-sequóia, não ir buscar o almoço de jeito nenhum; Polidactilia esfregava sua bucha caquética na marmita polida; Em torno de dez minutos pra encerrar a entrega da comida; A dona fornecedora morava longe dali pra se chegar a pé; Monodáctilo e Polidactilia não podiam adquirir um passe de teletransportador de moléculas porque nenhum Prêmio Nobel de física tinha inventado algo parecido; Se Leonardo da Vinci tivesse projetado um teletransportador de moléculas ontem Monodáctilo pegaria a marmita a tempo hoje; Monodáctilo repetiu pra Polidactilia não ir buscar o rango, enquanto petelecava o cigarro rumo dentro dum angusto buraco na parede; Polidactilia enxugava o Tupperware reservado pra salada; Polidactilia asseverou ser a última vez que buscaria o diacho da bóia; Monodáctilo colocou outra bituca de cigarro no orifício de costume; Polidactilia, impaciente, perguntou por que não colocava o cigarro no cinzeiro, mas antes de ela pronunciar a primeira sílaba da palavra cinzeiro, Monodáctilo já tinha introduzido outro resto de pito no solícito buraco; Polidactilia desistiu de pegar a comida; Tonitroou histérica à vizinhança que ia matar Monodáctilo, pois não era certo aturar quem há anos só enfiava cigarro na parede; Polidactilia resmungava que poria Monodáctilo dentro daquele furo se ele se atrevesse a pôr outro cigarro onde ela o queria bem dentro; Monodáctilo não deu confiança e continuou firme-forte-constante no rito que perdurava há um decênio; Polidactilia sabatinava Monodáctilo, pois queria saber como ele não tinha se ferrado ainda com tanto fumo; Em vez de respondê-la, Monodáctilo acendeu outro cilindro; Polidactilia, num embalo só, tomou cigarro aceso dentre dedos e maço dentro do bolso; Polidactilia enfiou cigarro com maço e tudo no buraco; Monodáctilo se afastou dali; Polidactilia bufava-enfiava com fúria os cigarros picados, quando então um reboco e logo a parede inteira deitou sobre ela; Desabou cigarro de tudo quanto é marca; Quando a poeira já estava relaxada, Monodáctilo agachou, pegou um guimba familiar e o acendeu; Então Monodáctilo começou a chorar condoído por ter conseguido ressuscitar o primeiro cigarro que tragou.

8 comentários:

cássio amaral disse...

Brother,
Seu texto é muito legal. Mono e Poli, relação entre dois... E além disso o existencial. Dividir as escovas de dentes não é phácill não. Con-
VIVER é uma arte e tem que ter muita paciência.
Abração.

Anônimo disse...

Como de costume, gostei muito!
(não é coisa de fã, gostei mesmo...)

São as pequenas coisas irritantes e repetidas reiteradamente que tornam a vida conjugal um inferno consentido!

bjo,cabeção!

Renata disse...

uma Sensibilidade de parede em alguem cheia de dedos. Eu que não queria um dedo só, viver a apontar os buracos dessas paredes =P

Carlos disse...

afggghh...big fucking finger!

rafaelnolli disse...

Ricardo, gostei desse ringue onde Mono e Poli se matam lentamente, com muito amor que já não existe e muito, muito, tédio! A vida a dois pelo menos pode proporcionar isso: a chance de matar ou de ser outro em família, sem perder a ternura jamais - ou sem tê-la desde sempre.

PS: O primeiro cigarro a gente nunca esquece.

Ricardo Wagner A. Borges disse...

Perdeu o casamento, mas recuperou o cigarro (primeiro e legítimo caso de Amor).

Celia disse...

com um marido desses, o inferno seria pouco...rss... ricardo, me conta, meu livro chegou por aí? já coloquei no correio há um tempão.... um beijo

Izabel Xarru disse...

hahaha, ainda tem seu comentário...

e não dá nem pra dizer que não sou fã, já nessa altura...

queria o glamour de uma parede dessas e, mais intimamente, um traguinho, tem jeito?

rsrsrsrsrsrrsrsrs