09/11/2006

Entrevista




Nome, data de nascimento, naturalidade, filiação etecétera:
Ricardo Wagner Alves Borges. Aquariano. Nascido em 27/01/1978, às 08:16:47, filho de parto natural, em Araxá (MG). Filho de Danilo Pereira Borges (in memoriam) e de Vânia Edméia Borges. Tel.: (0xx34) 8845-3773. Sangue tipo O+. Estatura: 1,77 de altura, segundo vouyers, e 3 de largura, segundo parceira de forró. Pesa, segundo a última tábua de Ouija consultada, 84 quilos. Bom de briga e ótimo amante. Só bebe enquanto fuma, só fuma enquanto come. Rói unhas e quinas de carteiras escolares. Viciado em rapé. Empola quando entrevistado. Hostil quando confundido com escritor. Tem esperança de um dia curar seus analistas.

Endereço completo:
Praça Coronel José Adolfo, Pensão Tormin (antiga casa de Dona Beja), nº 48 – centro, Araxá (MG), Brasil.

Biografia:
Eis o escorço: Nasci com 2 quilos e 850 gramas, com cabelo espetado, cabeçudo. Exatamente um mês depois, sofri uma delicada cirurgia no ouvido esquerdo. Aos 5 anos de idade fui enterrado na areia por meu primeiro amiguinho, o qual está hoje soterrado em dívidas. Quando em tenra infância, adorava desenhar robôs, jaspions, monstros, mulheres peladas e genitálias. Edificava maquetes de casas com páginas arrancadas de livros de matemática. Aos 9, tomei uma mangada na testa, de Marcelinho Engraxate, líder dos “abeia”, enquanto tentava impedi-lo de entrar na horta de minha avó. Aos 11 levei uma tijolada na nuca do irmão de Níkias. Aos 12 matei minha primeira meia dúzia de felinos filhotes com zarabatana caseira. Na alta adolescência, arrisquei os HQs, charges e caricaturas. Nessa fase, más línguas alegavam que perdi meu pai para o álcool. Ledo equívoco: perdi meu pai para a maleita, em Rondônia. Meu pai desenhava muito bem. Herdei um pouco disso. Mais tarde montamos, eu e um sócio, um ateliê, no qual trabalhávamos com arte por encomenda. Utilizávamos nanquim. Traquejava. Ouvíamos pagode sinfônico. Certo dia, um representante de classe duma escola estadual local solicitou nosso trabalho. Eu o fiz, na íntegra. O sócio se incumbiu de entregar aquele, embora tenha adulterado minha firma, e posto a sua no lugar dela; malgrado tenha arrecadado todo o dinheiro sozinho. Humpf. Não consigo me perdoar por havê-lo perdoado. Ou seja: tive uma adolescência comum, regada à profusão hormonal, acnes, acnases, boletins escolares vexatórios. Fui militante do partido comunista. Protometaleiro. Bom nalguma atividade extracurricular. Hoje sou bacharel em Direito e trabalho na assistência jurídica gratuita, na qualidade de assistente-advogado. Escrevo enquanto clientes, representantes legais de indefesos lactantes, acendem o cigarro, contentemente incontidos com o fato de eu postular a prisão civil de seus pais salafrários. Ok? Sem etecétera-delongas.

Quando, como e por que começou a produzir textos literários?
Instaurei o “nobre” ofício aos 19/20 anos de idade, quando fui agraciado com minha primeira condenação criminal na comarca de Araxá. Recluso, tive a imensurável benção de ter contato direto com clássicos da literatura nacional, na linha de Augusto Cury, Maurício de Sousa, Sidney Sheldon, Rubem Alves, Olavo Drummond, Heleno Álvares e transgressores congêneres, em vez de ler Sexy, Playboy, G Magazine e manuais do sexo manual afins oferecidos pelos demais detentos. Assim, além de me alfabetizar e refinar a informação adquirida, contrair sarnas e algumas DST’s aprofiláticas, descobri esta supravocação, e comecei a anotar cantinelas de extremo bom gosto as quais entoava aos colegas de cela – os únicos a estimular o intento persecutório de encontrar o alvará-literário. Estou a produzir textos porque o Sumo-Artífice, o qual asseguro haver encontrado no ergástulo público, assim o quer. Aliás, não escrevo bulhufas, apenas registro, com fidelidade e hombridade, o ímpeto cósmico passível de decodificação e entendimento humanos. Logo, sou ou não iluminado? A recompensa: atualmente sou um homem realizado: rico, famoso, desejado, perfumado, invejado, livre, empregado, casado, coleciono filhos, netos, enteados, poodles, bonsais, e gize: sou neopentecostal (Gloria gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntatis...) e circuncidado.

Bibliografia:
Rumores da Existência, 2002 (Araxá/MG); Aind’Essência, 2004 (idem); Com fissões de um protusuário de boteco, 2005 (idem); Os blogues Caossada, Prepúcio, Prodigus, além de participar dalguns periódicos de renome dos quais agora desconheço o paradeiro.

Qual sua opinião sobre literaturas e sobre a produção literária atual?
A seara literária se faz demasiado infestada de consumidores de açúcares, não de leitores. Certos operadores da linguagem e processadores de texto devem tomar bastante precaução, prudência: se um diabético ler o que compõem, morre instantaneamente. Difícil chegar ao termo, mesmo em se sendo chocólatra, imagine para um diabético? Uma metáfora-granulado pode ser fatal! Um aforismo-rapadura soa culposamente criminoso! A criançada, não tão ingênua, aprecia guloseimas, balas, jujubas-signo. Mas com pieguice não se fala do Amor, e sim de receitas para bolo, torta e demais iscas para formiga. Chega de burocracia cardíaca! Os escritores de hoje são talentosos: gourmets, doceiros, chiefs. As pessoas não sabem divisar a linha entre o que é literatura e o que é concebido por quem necessita se expor como poeta. “A autêntica poesia é uma música bela.” Balela! A poesia ‘conduz’ ao belo, e beleza significa tudo aquilo capaz de gerar deleite: conseqüência subjetiva, pessoal, relativa, variável, discutível. Segundo a ditatura da beleza, a mulher ideal deve sofrer de anorexia ou bulimia ou ambas juntas. Da ótica da medicina, isso sempre soará feio. Eu e outros urubus apreciamos as mais roliças, desengonçadas... Mudando de assunto, admiro quem não se preocupa em zelar pelos conceitos e príncipios íntimos acanhados, auto-censurados. Não há como esconder nada sob cuecas, lingeries sequer mediante castração, se tenho a linguagem em mãos: por mais tímidas que estas se me afigurem, um dia elas se rendem à tentação. Não há nada mais toxicante que um ambiente não visitado. Só se preserva o sagrado, revelando-o, independentemente do meio ao qual se pertence. Convém abordar motes underware, sem dispensar a criticidade possível dentro de regiões venéreas. Possível extrair conceitos e princípios de um ambiente toxicante, e oferecê-los numa construção inteligente a partir do material lá haurido. Basta aos penduricalhos-lexicais! A internet, legado do anarquismo, oportuniza a todos produzir e dividir entre todos o produzido, embora isso estimule a distribuição indiscriminada de egos, flores e jujubas, freneticamente, sobrecarregando o tráfego de conteúdos. Reitero: os escritores tendem, aprazidos, a falar de Amor com pieguice, amenidade ingênua e inoportuna, cortesia surreal. Não criam, apenas rezam terços bizantinos, e se ajoelham perante o diminuto. O Amor, sendo nobre, deve ser revelado em todas as nuanças, prismas e cismas. Destarte, por que enfocá-lo necessariamente com suavidade? O Amor pode e deve ser extraído de guetos, e não apenas de ambientes incensados com glamour paladino. O Amor é um sentimento universal, e a faculdade de interpretá-lo também. Ora: o Amor pode soar inusitado, agressivo sim. O ontem foi a era rentável para a estirpe da auto-ajuda (anarco-individualista); a praga de hoje é escrever biografias aparentemente diets. As editoras se mostram empolgadas com biografias de “profissionais do sexo” (exempli gratia, Raquel Pacheco, nome real do néon ‘Bruna Surfistinha’), como se bastasse colher meras experiências inerentes ao ambiente hostil para se tornar escritor aquilatável. Blergh.

Qual a importância da literatura para pessoas, individualmente, e para a sociedade?
Difícil vislumbrar qualquer ganho substancial obtido mediante o exercício da literatura. Nem eu sequer a coletividade precisamos dela. Aliás, ela é quem realmente precisa de nós. Escrevo justamente para me livrar de algo, não para ganhar. Muitos literatos neófitos preconizam que “o que seria do mundo sem a poesia?”. Em que nos pese, prefiro formular: “o que seria da poesia sem o mundo?”. E não interprete isso como um mero capricho de inversão, de espírito de contradição gratuito, em plena ansiedade de comunicação. O mundo pestaneja, e clama por silêncio. O conceito de literatura deve imediatamente ser revisto; a idéia de importância deve ser lavada a jatos rústicos. Nem tudo o que é importante é útil. Escrever não é escolha tampouco dádiva, mas sim uma sina; uma sensibilidade-inferno de conviver com o descontrole-incumbência de desmitificar o que nos cerca e amedronta, tendo em mãos teclas, traumas e particularidades com as quais delineamos e delimitamos as estruturas a compor o objeto pensado-pensante. Enfim, a importância da literatura revela justamente o ancestral embate de provar ser ela necessária, praticando-a, desinteressadamente. Sempre soubemos de seu valor, mas não podemos nem através dela explicar os porquês. A literatura cria o conflito, não o soluciona sequer aponta paliativos. Por isso ela fascina. A literatura inaugurou uma nova modalidade de guerra, onde quem escreve e lê participa, co-age.

Como escritor, o que recomenda às crianças, aos jovens e a quem estuda letras?
Não tenho cacife para recomendar nada, sistematicamente tratando. Não sou doutrinador, religioso, analista, médico, guru. Entanto teimo. Recomendo, às crianças, ler Ero Guro; aos jovens, praticar parkour, aos acadêmicos de letras, ignorar a nota baixa atribuída à sua entrevista. Saibam que exerço a prática forense, sendo assim, detenho conhecimento, parco, acerca disso. Recomendo então paciência às crianças, quando o pai não cumpre a obrigação alimentícia. Talvez ele esteja custeando álcool aos companheiros de gole, nalgum antro; talvez ele não seja um alcoólatra, pai egoísta ou troglodita apático; talvez ele seja um poeta em potencial seguindo as atuais tendências, e uma delas é freqüentar ambientes hostis e toscos. Às mães desses infantes: não manejem, antes de conversar com o pai, uma ação de execução. Às vezes ele precisa de alguma editora, e não de um anjo do AA, esporro do magistrado ou contar carneiros na cela. Aos jovens digo: os pseudo-intelectuais asseguram que a tv é nociva. Não é bem assim. Conheço gente que escreve bem à beça e nunca leu um gigante ou se preocupa com tal. Conheço gente autodidata em servo-croata que logrou aprovação num exame, e hoje intercambia por aquelas paragens. Possível apreender algo útil com a “suposta” inutilidade, partindo do pressuposto utilitarista: sendo útil, tudo posso. A tv imbeciliza só os predispostos à imbecilidade. Professores, independentemente do curso, adoram o jargão “tv leva à letargia mental”. Humpf. A leitura auxilia na comunicação, no domínio do idioma falado, mormente no escrito, mas não facilita no dinamismo do processo de criação sozinha, nem determina o curso do pensamento e o caráter do pensante. Tudo influencia, mas nada pode ser reduzido a letras. O que se abrevia, distorce-se, falsifica-se, atrofia-se. A isto existe um rol infindável de instrumentos de expressão: um podendo escorar o outro, cada um com sua contextualização, solidez e tradição. Ademais, universidades consagradas se resumem a celeiros de cérebros. Outro jargão besta. Quase fascista. Qual o problema com o aprendizado atípico? As universidades hospitalizam, não curam o doente de si mesmo. A formação intelectual depende muito mais do interesse pelo conhecimento do que do interessado em distribuir conteúdos. E conhecimento cabe em qualquer lugar, e em que pese a verdade, até no diálogo com a puta bêbada analfabeta se pode extrair raras louçanias. A seara universitária não aponta a solução, pois mal revela o problema o qual não sabíamos existir, e que agora sabendo, vislumbramos uma sinuosidade certa. Há fatores e fatores que moldam um grande escritor, os quais podem ser achados aquém ou além da cúpula-letra. Estatística aponta: 1/3 dos nacionais representa o índice de analfabetismo vigente, embora mesma apuração valha para os iletrados com curso superior completo sob a manga. Nas carteiras universitárias se concentram os receptores mais passivos de informação. Âââââââââââ. Saliente-se: não só o culto à linguagem escrita influencia a ponto de aprimorar proporcionalmente a linguagem escrita na medida em que se a cultua. Se Machado de Assis não estiver ao alcance da percepção e interesse púberes, o jovem, insistindo em entendê-lo contrariada e inoportunamente, sentirá desgosto em relação aos demais escritores, criará uma barreira de difícil transposição no tocante à literatura. Não é a idade cronológica o indicador da maturidade, mas a idade mental, isto é, a existencial. No ensejo certo o jovem saberá escolher o que cabe naquela ocasião. Introduzir clássicos goela abaixo só piora a digestão. A leitura é necessária, mas não essencial. Devemos observar tudo, e todas as vertentes de linguagem. A literatura é só mais uma dentre muitas manifestações artísticas. Superestimá-la significa desconhecimento do próprio objeto. O estudante de letras deve entender que seu curso oferece caminhos para o mundo, e não mundos a caminhar. Quem acredita que um autor cria um novo mundo sofre de autismo.

Uma mensagem, como escritor, para ser apresentada a quem tiver acesso a essa pesquisa.
Pesquisa? Pensei que estivesse sofrendo uma "entrevista"! Desconsidere tudo. Por acaso tenho perfil de unicelular bizarro descoberto em águas remotas? Bah. Deixo 5 mensagens. O diploma matou o conhecimento. A palavra corrompeu, encarquilhou a verdade. Escrever não é dádiva, mas sina em vigília. Inexiste unanimidade naquilo que envolve escolha. Quem precisa de ereção é o caralho, não o homem. Posso ir?

11 comentários:

Ana disse...

Você é o Cão!, eu sempre intuí (soube, você sabe...).
O resto eu já sabia, mas não intuía.
beijo duplo

Ana disse...

como é que vc dá conta de história e direito ao mesmo tempo?

cláudia belo disse...

concordo:"quem prescisa de ereção é o caralho e não o homem"

cláudia belo disse...

mas...será que um homem se sente o tal(homem)sem ereção???

francesca disse...

e outra...perdoar p que?vc devia ter dado um murro naquela seu sócio.

Maldigula disse...

Grande RW ! Como sempre, ótimo texto, dinâmico e muito engraçado.
Fechaste com chave de ouro:
"O diploma matou o conhecimento. A palavra corrompeu, encarquilhou a verdade. Escrever não é dádiva, mas sina em vigília. Inexiste unanimidade naquilo que envolve escolha. Quem precisa de ereção é o caralho, não o homem. Posso ir?"
Parabéns !
abraço,
Alexandre

Paola Vannucci disse...

boa

gostei muito do final

vc realmente é legal

bjsssssssssss

Cássio Amaral disse...

CARA,
PERA AÍ EU SOU EU, CÁSSIO MARCOS AMARAL. CÁSSIO AMARAL, PROFESSOR DE HISTÓRIA E LOUCO DA TABA DOS ARAXÁS, SOU FILHO DE BELCHIOR DAS GRAÇAS AMARAL E DONA MARIA DE LOURDES AMARAL, ANA CONFUNDINDO NÓS DOIS! QUE VIAGEM!
SUA ENTREVISTA FICA LEGAL NO FINAL, AÍ VC DÁ AQUELE GOLPE DE SAMURAI Q VC SABE, GOLPE FATAL. MARCELINHO ENGRAXATE DEU UM TIRO NA MINHA IRMÃ. EU MORAVA NA ÉPOCA EM BRASÍLIA. (DEIXA ISSO PRA LA...)
SUA ENTREVISTA É REFLEXO DA SUA ESCRITA, EXPLOSÃO DE EXISTÊNCIALISMO.
ABRAÇÃO E SAÚDE E LUZ.

Denise disse...

Esse é você, mesmo.

Beijos

Uirá dos Reis disse...

maravilhoso.
gostei da maneira como vc é humorado e sério, tocando nassuntos como a literatura hoje (doceiros, etc). lindo aquilo.
tbm escrevo, e sou de fortaleza. o meu email/msn é srhiena@hotmail.com, blz? falou.

u.

Anônimo disse...

CLAP CLAP CLAP MUITO BOA, rsrsrs.

aquele abraço, e feliz preço baixo.
Aroeira