16/11/2007

Madê

Aos restos imortais de Calíope
.
.
.
Acordasse com teu sorriso à minha fronte,
manteria a janela trancada,
abriria mão da luz solar.


(sucedendo estoutra sorte...)
Caso não despertasse contigo,
entrerrisonha, e no pique,
e gotejando útero afora,
gargalharia ao ver-te chorando, espremida,
pela janela, sangrando-te, até expelir o feto,
em meio à chuva graxenta, grossomolhada.


Acordado, flerto contigo, mademoiselle:
a ti (agora, diante de tua buceta tetanizada)
confiei uma fresta vasta
a qual não soube aproveitar,
pois – cá entre nós – mais ninguém,
além do hipotético intimismo*,
adentrar-me-ia.


Com licença:
vou dar à outra luz
que me obedeça
sem me sujar.
.
____________
*O egoísmo configura, por excelência, a forma legítima de altruísmo, pois não há ninguém capaz de permanecer mais solícito em relação a mim do que eu próprio.

18 comentários:

Grazzi em ContRo disse...

Um presente suspeito,
suspeito..

Leka disse...

Quanta paixão, meu caro!
Delícia de ler..
Beijos grande!

Leka disse...

(BeijO grande!)

Andreia Muza disse...

Que moço mandão vc é!
gostei...hihih
bj

Carol disse...

hahaha adoro vadias sedutoras.

cassio amaral disse...

Ricardo,

Simplesmente como é tua pegada e tua verve: DU CARALHO, DUCARALHO, DO CARALHO...

Você diz que a poesia morreu, te entendo. Mas pra mim você é um POETA!!!!.

Te amo cara!

Abração.

Anônimo disse...

Gostei,Ricardo.
Forte e frágil.
Entregue com a reserva certa do que é próprio,espaço íntimo.
Tua escrita é inconfundível.
Bom de mais.
bjo
Dani RW

Beth disse...

Começou bem... depois ficou feio... não gostei !
Você consegue escrever coisa melhor...vai, tenta !

Ricardo Wagner Alves Borges disse...

Por que diacho a poesia deve ser sempre bela, suave, cheirosa; já não basta a sua musinha impecavelmente ofeliana?!?

Não fui doce nem delicado porque não escrevi um poema como o de costume, haja vista que sou/estou alérgico a lirismo (pra não mencionar diretamente o âmbito poético).

O que você chama de desande, chamo de processo gradiente (do branco/brando rumo ao negro/denso); ou seja, começo dum jeito usual (lírico) e descambo pro, em tempos vindos, inusitado (gutural).

___


Você entendeu que quem torturo/mato é a própria poesia e o que ela carrega no ventre (seria o leitor ou o próprio poeta ou uma outra musa?)?

E, ademais, matar com doçura, logo a poesia?

Pô, Beth, vá ler Adélia Prado, Vilma Cunha Duarte, Heleno Álvarez, Tiago de Mello e autores consagrados da editora Litteris.

Você não entende, a poesia está infestada de ramas de maracujazeiro, capim, pasto, casarões antigos, de paisagismo, de neoparnasianismo, de vocábulos alienígenas (blergh); emborrocada de batom, blush, gloss, laquê, rendas, calça centropê e firulices. Nah.


A poesia não deve "sempre" trazer alento, prazer, alegria, pétalas e abelhinhas inofensivas. Não. Não & não. A poesia está mais pra conteúdo corrosivo e combativo (no caso, simbolista e ao mesmo tempo amitológico, antidogmático, antiditatorial [entenda-se "anticlaudiodanieliano"], criminal, psicopático, enfim, despudoradamente anárquico e sedutor tal qual Dr. Hanibal Lecter) do que pra essa forma assilhuetada de madame perfumada, na moda, mas que não sabe andar sobre algo diverso dum saltinho fino -- e frágil -- o que a torna desingonçada no rebolado.


A poesia está morta -- e desenterrada --, por isso escrevo outro gênero que, malgrado a similitude, deveria ser associado a letras de splatter, gore, grind, noise "et reliqua".

___


Com licença.
Vou peidar.
Ahrrr.


___


Ninguém me ama
(Sou puta de araque?)
Ninguém me chama
Rita Cadillac.

Beth disse...

Se eu fizesse um elogio, como os baba-ovos aí de cima, vc teria um orgasmo, hein??
Não, meu caro, fui sincera. Assim como serei sincera quando eu gostar de alguma coisa sua, ou de qualquer outra pessoa que me peça pra lê-la.
Qual é ? Você é filho único ? Não suporta um não ?
E olha, pelo que vejo, você tem bagagem cultural enorme!
Leia " Uma carniça " de Baudelaire, é lindo, eu adoro!
Eu vejo lirismo em Baudelaire...

beijos

Beth disse...

Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.

As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.

Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para ao cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.

E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.

E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Ou esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.

E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deita novamente.

As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia.

Por trás das rochas irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Náusea carniça o seu bocado.

- Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol de minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a benção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.

Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto!

"Charles Baudelaire "

farfa disse...

Rapaz, muito bom !
Sempre com um humor rasgante e visceral, eu visualizo com nitidez o que escreves por aqui.
parabéns !
abraço,
Alexandre

Sue Castro disse...

Já tinha me falado dele. Mas eu não esperava tanto. Lembrou-me exclusivamente a história perversa de uma musa aprisionada e um escritor enloquecido - não suportou tanta inspiração, pobrezinho. Do ventre nasceu um sonho, morto posteriormente pelas mãos do progenitor.

É... gostei...

*:

Ah...
Me diverti com os comentários.

De Baudelaire ("pronuncia-se boudelér" - vc é um bêbado!) prefiro Remorso Póstumo.

Ricardo Wagner Alves Borges disse...

Esqueça tudo o que um cidadão não-gordo balbuciou à sua mesa certa noite.

___


Seria "Budelér"?


Sei lá.


Domino mesmo só o pirahã!


Beijo nas "um dia pregas".

L. Rafael Nolli disse...

E quer saber mais: já tá fedendo a poesia!

L. Rafael Nolli disse...

e que a terra lhe seja leve!

SAMANTHA ABREU disse...

Á-há...
que delícia.

chega a doer.
e quem é que não gosta de um bom tapa (seja ele lírico, poético, ritmico, visual ou um puro e simples tapinha sexual).
Hein?!
Aliás, a poesia é a que mais gosta, essa mulher de bandido. Gosta de ser lambida pra se fazer menina, mas gruda mesmo é nos poetas que a maltratam.
E você, meu caro, fez bem.

gamei nesse tapa, Ricardo.
Beijo.

Fernanda disse...

Como o texto é dedicado à Calíope ninguém poderá sentir-se ultrajado por "expressões fortes". Sim, porque ainda nos tempos atuais, tem muitos que se chocam com formas desprovidas de hipocrisia na escrita. Não é meu caso. A primeira estrofe possui um lirismo absoluto, mordaz, voraz, intenso mesmo! As outras três fogem totalmente do esperado, elas apresentam alguém que já vive aquele momento que, anteriormente, era apenas um "se acordasse".

Ler-te é um regozijo!

Amplexos.