18/10/2007

Nolens, volens (contra-respostas, aforismos)

1. “A religião é o ópio do povo”, dente de ouro de Karl Marx que, segundo Reinaldo Azevedo – um dos neurônios instalados na Veja (por sinal uma revista tão direitista que removeu o hemisfério esquerdo do cérebro) –, cria a ilusão de que o homem é onipotente. Ora, quer [ele] maior demonstração de onipotência do que sustentar a existência duma vida eterna?

2. Tempo não é o terço bizantino orado pelo relógio, mas a energia alcalina que me mata enquanto estes exatos ponteiros, apesar do desinteresse por uma tradição das almas, mexem-se com intransigente vigor herético.

3. Vezoutra entendo quão difícil é dominar a arte negra da convivência, tomando por base a complexidade de eu mesmo ser algo chato de se criar.

4. Como saber se o que deus escreve não corresponde a uma mera interpretação pessoal, de um homem qualquer, acerca de si próprio, compenetrado em um eixo tão certo quanto a faculdade de imaginar, em fiel conformidade com um vício irremediável ou uma vaidade inconsciente, hereditária e útil na grande maioria das circunstâncias e círculos sociais onde se requer a apologia de antemão, pois o que se conhece a respeito de deus depende da leitura que esse homem faz da luz (inculcação duma autoconsciência sob êxtase) que julga trazer dentro de si mesmo, luz esta imperscrutável para os outros em estado diverso do contemplativo ou até mesmo para aqueles aptos à sintonia com a mesma carência? (___) Impossível abster-se da consideração fixa e simultânea de deus e de si mesmo. Inaceitável a idéia de [considerar] deus sem considerar a de si próprio. Se uma determinada hipótese é dinâmica assim como toda teoria interessada no eu existe e é transitória, posso concluir decerto que o eu e deus se encontram diretamente numa mesma confluência psíquica inacessível.
Eu não me conheço, logo sei-me deus – não há nada mais genuíno, instável, obscuro e por fim conveniente.

5. Deus é sobretudo atarefado: sequer dispõe de tempo pra existir.

6. Tardio, começo a desconfiar da teomania: quem precisa acreditar na existência dum deus pra se sentir saudável sofre dalgum transtorno de ordem mental. Se me permitem, eis o diagnóstico de muitos pacientes: paranóia, delírios introspectivos¹, histeria, neuroses, humor flutuante², conceito exagerado sobre si mesmo³, esquizoidia⅓, sociopatia⅔.

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1 - Visuais, auditivos e olfativos; oniromancia (Nostradamus).

2 - Picos de euforia exortativa e recolhimento monástico (bipolaridade).

3 - Messiania, dogma da infalibilidade papal.

1/3 - Ascetismo, renúncia da atividade sexual e demais prazeres sensoriais imanentes à vida mundana.

2/3 - Autoritarismo (intimidação, violência seguida de requintes de crueldade empregados a fim de manipular os outros e satisfazer os próprios caprichos. Apresentam uma expressiva atuação sócio-política e sedutora fluência verbal. Costumam liderar grupos/instituições e o diacho, exempli gratia, Igreja Católica e a criação do Tribunal de Santo Ofício, Cruzadas, Nazismo, Hamas, Fatah, Hezbollah e regimentos com fitos bélicos, declaradamente santos ou não), preconceitos, intolerância, opróbrios (no Brasil, neopentescostais), moralismo superficial, i. é., hipocrisia (insanité sans délire), comportamento invariável (fundamentalismo).

6 comentários:

Sue Castro disse...

Tudo remete ao poder. E o poder é o ópio aceito pela lucidez humana...

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Anônimo disse...

craro, cróvis

tanta rasgação pra nada..

Ricardo Wagner Alves Borges disse...

Você rasgou meu coração. ;^(

Pelo menos pra dizer meu "nada" mostro a cara, ou seja, sou alguma coisa a mais que um comentador bundão -- ou, ao que parece, além de boçal, deve ser feio, mais feio que o ato de se esconder!

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Vá ler Pudim de Beterraba: http://pudimdebeterraba.blogspot.com/

ou ver o novo site da Polly: http://pudimdebeterraba.blogspot.com/

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Beijo onde o Papai do Céu costuma beijar!

Ricardo Wagner Alves Borges disse...

Gente que diz sem assumir o compromisso com a própria palavra, que não quer se "sujar", não agüento (leia-se "não tenho paciência nem respeito")!

O fato de se postar um ponto de vista divergente (até mesmo ofensivo) não me incomoda, sério; contudo, enche o saco gente a expor um ponto de vista contrário -- mas não formulado -- sem assinar embaixo.

E o pior disso é que há uma grande chance de ser alguém a constar de minha lista de amigos (ou pode ser um amigo destes amigos que chegou aqui "de tabela"), considerando que só convido estes pra ler isto.

Porra: amigos têm o direito de discordar (claro!), mas a partir do momento que se escondem debaixo da saia duma identidade anônima perdem esse direito, inclusive minha amizade.

cassio amaral disse...

Pancada!

Anônimo disse...

Já li outras coisas que escrevestes sobre esse tema.
Penso que a maioria das coisas atreladas a religiões nas quais cremos, não passam de invenções, de interpretações meramente pessoais de quem "transcreve a palavra de Deus", motivadas pela vontade de manter o controle da maioria.
Por outro lado, se tais crenças não fossem necessárias, as pessoas já as teriam eliminado, mesmo sendo culturalmente tão difícil.
Alguma necessidade maior, íntima, faz com que a maioria acredite no improvável, talvez para apoiar decisões, para livrar-se de culpas, ou para punir aos outros e a si mesmo.

Dani