13/02/2007

Ovelhices

Olha só O arco-íris parece exercer, empolgado, a incumbência de incrementar ainda mais o saturado mercado de superstições, dada a sua facilidade de estampar um deus celícola na umidade aérea Sabe, ele possibilita, com sua brevidade visual, a contradição de um deus mortal Uma divindade morre esmagada pela sombra de ruína Não resiste à piada diluvial O arco-íris é um deus-leque infernizado pela instantaneidade a cores Mas basta a distração do cataclismo que um sussurro-coluna remanesce O papirólogo chega e recebe do arqueólogo a charada escavada Competentes e abençoados pela graduação científica quitada a longo prazo pelo papai, decifram a narrativa-achado em minúcias Dissecam a coluna Os dois trabalham na velocidade de um grupo Reconstituem toda a hipótese de trono Ressuscitam um cisco e o coroam De um cisco pinçam um panteão

Um pigmento de história-casebre permite ilustrar uma gigantesca ruína palaciana Em matéria de engenharia teológica, somente a ruína não cerra os olhos A posteridade que é o milagre prometido a múmias, não a imortalidade A técnica de mumificação vivifica a posteridade A ruína orgânica situa-se num paraíso impermeável, além do alcance da decomposição A posteridade é o exosqueleto de um passado órfão Quando a posteridade teima em alimentar um cadáver, engorda um novo deus Esse deus é gula provocada a partir do instinto de abandono O homem extrapola a própria natureza, projeta-se no excesso, porque não suporta a idéia de existir um deus tão limitado que duvida da existência humana O futuro vai comparecer, olha ele bem ali, engatinhando e esbarrando em tudo, direto da velhice

Não o homem O macho-fêmea representa o centro, a medida de todas as coisas, mas são todas as coisas miscíveis? Fossem-no, uma escala binária, um compasso maniqueísta não poderia medi-las, assim Um par não se complementa conforme o usual As coisas existentes subdividem-se, passivelmente, em mais de duas frações Equivocou-se quem argumentou ser o homem o molde matricial de todas as coisas O senso comum utiliza a medida-casal

A humanidade centraliza valores precisamente binários, meu chapa Prioriza a doisificação Outro deslize Uma medida binária não pode medir, pois simplifica, imprudente e dolosamente, a vastidão de variáveis asseguradas pela infinidade que descentraliza até mesmo a noção de base Irresponsabilidade doisificar Nem um ser humano (unidade) sequer dois deles (binariedade) são matrizes das coisas Não há uma mera medida (antropomorfização) ou duas (heterossexualização) e sim três quatro dez mil medidas disponíveis para as coisas dispostas Há duas cinco quinhentas medidas das coisas; coisas das medidas; coisas das coisas; medidas das medidas

Não pode haver detrás de toda a trajetória-púlpito do judaico-cristianismo um deus diverso de uma mente negligente e conivente e por isso malandra Difícil apurar se sou tolo por me considerar consciencioso quando invoco alguém ou um boçal justo por eu não ser esse mesmo ser invocado Uma grande certeza generalizada é a própria ignorância que me conduz a tão distante para tão pouco

O principal problema religioso está no fato de delegar atributos funcionais estrita e necessariamente humanos a deus, por exemplo, exigir dele o reconhecimento do semelhante Identificar-se, conviver com o semelhante

Não há uma verdade absoluta, há, aqui? Havendo-a, esta seria uma unidade de convencimento genérico Diante do advento da fauna neopentecostal, doutrinas e templos de garagem simpáticos, resta-me conformar que tenho, no máximo permitido pelo otimismo, um enorme rol de verdades meramente hipotéticas e dependentes do contexto originário Se houvesse uma verdade passível de total e eterna veneração, por que ela, esta mesma verdade, preocupa-se em prolongar a exibição de tantas facetas, e não expressões faciais impressas num mesmo rosto? Se há uma fórmula infalível de conclusão, quem ou o que esclarecer-me-ia a necessidade progressiva de perfilar tantas versões ambivalentes todavia em constante discrepância? Enquanto as explicações se confrontam, excluem-se Por causa da engenhosa incoerência onírica se complementam O termo absoluto não admite variações, pois se varia diminui, se diminui distancia-se de onde está o que é A natureza absoluta de uma coisa, quando sujeitada à variação, sofre uma agressão depreciativa O absoluto encerra-se em si, em torno do próprio eixo

O que pode ser pior Assédio político ou religioso? Afinal, subsiste alguma diferença que não seja sutil? Um nacional interferir nas questões internas de um estado estrangeiro soa tão invasivo quanto a ovelha mecânica, despersonalizada, de portemporta, determinada a inculcar sua macia auto-limitação em quem a recebe A ovelha não tem coragem de enfrentar o lobo, porque aprendeu com desvelo a temer a figura de seu pastor A ovelha deitada ao lado do leão sai ferida, pois antes agride a ordem natural ao exigir mansidão da fera A ovelha sofre agressão do leão porque seu pastor garante o contrário O pastor não perturba a fera quieta: usa seu rebanho e observa o abate na sombra distante A fera é quem manda no rebanho, não quem o ataca O leão só ataca o rebanho porque sabe que por trás dele esconde-se a verdadeira fera O leão ataca a ovelha porque sente nela o cheiro de outro leão A diferença essencial entre a ovelha e o leão é que a ovelha não conhece a fera e a fera conhece a ovelha O rei da natureza tem o instinto predatório, a fofa ovelha o de ser predada A vilania parte de quem faz questão do abate e sobrevive para acusar quem não pode recusá-lo

O devoto, ao se dedicar com integral fervor à atividade de vender o manual prático de libertação, abre margem à invenção de mais um deus chancelado pelo pastor O cristianismo deixou de ser classificado como expoente do monoteísmo, pois tem o vício de clonar um mesmo deus na medida que protesta uma mesma fé O cristianismo edificou um panteão lotado por variações de um mesmo deus matricial

O que se aduba com merda de ovelha apodrece do mesmo jeito

Escuta Se, debaixo da bigorna ditatorial instaurada em seu território, e escorado numa deliberação de responsabilidade social, proíbem livremente a liberdade e autonomia de imprensa, a religião, sob a figura de seu exegeta, esmaga através da autocensura ao incutir a infalível punição, sempre iminente ao inocente, de quem contestar suas cláusulas contratuais

Ovelhice Todos querem compartilhar a verdade com sua comunidade, mas apenas oferecem códigos e sanções hipotéticas pré-fabricadas na oficina improvisada dentro da própria garagem – com a enferrujada parafernália de eficácia duvidosa emprestada pelo vizinho A religião, bem antes de exibir sua fachada industrial, com direito a letreiros lasveguianos e logomarcas robustas, colecionava fórmulas de origem caseira, muitas vezes descobertas ao acaso e sem nenhuma utilidade elementar A religião não agrega mais valor a deus que os instintos A tentativa religiosa não consegue condensar caminhos para transpor uma crise se ela própria experimenta uma crise maior Logo, a religião peca por ser provisória – e por não ter consciência disso Ela não consegue acompanhar o ritmo das crises as quais não cabe a ela prescindir Quando olho para o visor do relógio, raramente ele marca um horário redondo Assim uma crença se apresenta e se afasta de mim Doutrinas cobram caro pela confortável viagem, contudo não levam o passeante para além do pedágio O paraíso é aí Carregado de maçãs de plástico

Olha só

O homem tem o dom de atrapalhar o descanso do que não existe

4 comentários:

tavinho paes disse...

vich maria O santo tá danado de afiado...

cassio amaral disse...

Cazuza,
Você é um cazuza (vespa de fogo)
Brother, que q eu vou falar.
Do caralho
Ducaralho
Do caralhaço.

P.S. A entrevista com Rodrigo de Souza Leão está no:

http://cassioamaral.blogspot.com

Anônimo disse...

Brilhante, cabeção!!
Tua inteligencia as vezes é difícil de acompanhar... não vou te dizer que concordo com tudo, mas teu ponto de vista é respeitável.
A religiosidade faz parte da naturaza humana, necessária também.
A crença provoca milagres químicos no cerebro do homem.
O ruim não é crer, mas sim como crer... em quem crer. o rium não é a religiosidade, e nisso concordo contigo, o ruim é a religião!

nosbor.araujo disse...

o vertical o horizontal o diagonal e o L SUTIL ,ESTÃO PRESENTES NO TABULEIRO:tempo-espaço. e sem noite e dia frio quente positivo negativo bom ruim...e...variantes...qual olho tocaria a pele do seu tecido? -sou seu leitor e fico mais proximo do araxa...