22/09/2006

Poeta: lantejoula de ego

Eu-lírico é rouxinol engaiolado; bode expiatório de fala incongruente. Vivifica indigestão. Encorpa náusea. Tonifica covardia quando alega prudência. Mascara acareação. Estorva mais que glândula lacrimal de ex-artista global no pico da ação: ao reclamar, online e a cores, de atualmente vender coco em praias cariocas. Reivindica o tempo abandonado pelo calendário. O “eu” dessa gente injeta Botox em metáforas-múmia; funda ONG para a rubrica rebolar em passeata até rasurar o despropósito. Infla a simpatia quando, em programa de auditório dominical, sofre entrevista. O telespectador crê ali haver relação humana de igual para igual, embora desconheça que domicílio de alienígena é logo ali, na introspecção. O ator pranteia lágrimas obesas. Providencia a dor sem pausar e recorrer à cena onde atropelam a desgraçada cebola. O ator sabe que ele, ele próprio, é artista, porém não consegue diferir artista de apresentador de programa de auditório, cuja sede-cenário ilustra a cena-fato onde menores expostos cutucam BMWs, oferecendo doces a políticos interessados em dossiês. O termômetro denuncia o IBOPE ereto. O travesti próximo aos menores, sob stand by, programa o programa. O parlamentar confessa o tesão pelo presidente. O viado vende o voto por silicone. A cria de Roberto Marinho se ofende com cocos. O apresentador de tv homenageia sua vítima. Esta retribui: a cortesia é bem-vinda, cabe até numa 12 polegadas. Em primeira mão. Tempo real. Horário nobre. Congestionado. Família tupi-guarani em sinal de continência sobre o sofá dos ácaros. O leitor-ator barbeia Machado de Assis, adiciona glicose em Lima Barreto: acata ordem do eu-lírico compacto, maciço. O TSE demite o horário eleitoral gratuito. Celebra contrato com a carpideira. O parlamentar se sente comovido com o projeto de minha autoria. O vendedor de cocos ambulante vende a fruta que o Diabo plantou. O federal logra êxito: consegue aprovação na câmara de um projeto plagiado. A carpideira vai à praia tomar água de coco e pedir autógrafo ao vendedor. O eu-lírico muda a página, não o mundo.

7 comentários:

Kity Amaral disse...

Já te falei...
Vc tem uma caligrafia única
Tem marca digital
Estilo só RW
A coisa mais díficil é ler
um escritor original
Sabota à gramática
Revira temas tabus
E dá um foda-se aos urubus!
Forever...

Paola Vannucci disse...

Não adiante nada o mundo inteiro mudar, o horário eleitoral calar, a vidinha besta continuar, temos é de nos mudar......

Adorei....

bjssssssssss

l. rafael Nolli disse...

Cara, eu-lírico bom é eu-lírico morto! O final do texto é um soco no estômago!

flávio disse...

Putz... que exploda a bestialidade destes programinhas xulos, com seu público marionetizado, que o eu-lírico, mude a página, o endereço e o sexo!

Joana Corrêa disse...

perfeito, sempre.
ele sentiu uma porrada daquelas, e morreu. ahaha
eu te amo.
fã assumida, de verdade.
mas o meu eu-lírico te abomina.
ele não existe, enfim...
amo.
fã.
ponto.
ok?
;*

Cássio Amaral disse...

Cara, eu acho q tenho esse rouxinol engaiolado, só que vou fazer dele um CORVO agora. Pena que BMWs não são da minha praia, ET não usa carro, usa OVNI. Muito legal a sua sacada e criticidade.
um UIVO procê: AAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!

célia musilli disse...

há eus líricos por toda parte... formam panelas de várias naturezas. um lambe o outro e se locupletam na fama.. um beijo