12/08/2006

To be beat

Allen Ginsberg & Peter Orlovsky (nude portrait)


A fraqueza insinua uma baforada com a nicotina avulsa, mesmo que seja no beiço do nacional US. Beber não posso. Porém decaio quando, num boteco periférico, alguém aceita um livro meu em troca de 2, 3 cervas só porque conheceram meu pai, nos botecos da vida, e eu o lembro, física e boemiamente, demais. Valendo-me da dedicatória, consigo extorquir mais bebida. Não devolvo a caneta com que dedico: taxa cobrada em sinal de tolerância aos bêbados, os quais, malgrado pertencer e representar a classe com precoce virtuose, não os suporto. De um preceito para outro conseguia me convencer, naquele ensejo, de que a ressaca moral é mais uma dentre tantas convenções e não um instinto de autopunição com sotaque de locução interior soletrada pela autopreservação.

Fora dali. Na praça cuja estátua de Dom Bosco usa batom. Apelo para o mendigo no intento de obter Coca-Cola no supermercado BIG e assim asserenar a brasa de sua, digo, "nossa" vodca. "Vá lá, sô! Diga que você quer um refrigerante pra acompanhar o mexido que você ganhou." E o comparsa desce a avenida batucando a Fanta Uva 600 mililitros. Sentia alguma pena do coitado, mas me sentia culpado por ainda estar ali e lúcido, na qualidade de confessor de capoeirista trêbado, fedido — e chato. Eu, qual um porta-voz da caridade espírita, deixei o exemplar (livro) roto com a figura encardida, e rumei sem lembrar donde parti e aonde haveria de me aportar com o imundo pacote em mãos.

Na loja de conveniência do posto Max, rente ao termo da Via Crucis, o que outrora era remota lembrança à deriva, de súbito, ajustava-se "ao" peito, mas não "no" peito. Lembrava-me que a memória parecia 12 PMs versus 1 baseado confesso. Sim. Reminiscências podem ser truculentas, dolorosas, desproporcionais. Um dependente de etílico ou de ilícitos pode restar com minguada soma neural, contudo cada neurônio remanescente é da estatura dum carrapato de Nelore.

Um dependente pode muito bem se recordar do palestrante Carlos Eugênio Bonatelli que, segundo ele próprio e a credibilidade que minha ingenuidade se lhe atribuía, havia se curado das drogas, entanto fumava tabaco sobre o tablado da Escola Estadual Vasco Santos enquanto dirigia a palavra aos adolescentes. Um dependente pode rever o dia em que afrontou um pau-mandado do próprio ego (incabível em Narciso); pode igualmente revisar o verbete donde consta significar "palavra" dádiva e não sina; que o filho, com o pau duro pela luz no fim do beco, dependia do coração compatível, e seu ascendente alentado suicidou tão-só para que ele sobrevivesse; que o transplantado, anos decorridos e décadas usufruindo do viço, ao descobrir a procedência daquele órgão desferiu uma punhalada no peito, erradicando o pai.

Brinquei muito de molestar o neurônio virgem. Hoje, no mesmo boteco que está em todos os lugares, sou o bacharel cuja única petição leva até 3 meses para ser comentada por no máximo 3 leitores diversos dos destinatários. Pouco penetrei as alcovas-doce-lar de Christianes F., Brunas Surfistinhas... Pouco (e sem o gabo de haver vexado) injetei o modelo ginsberguiano de extrapolação (a)narco-experimental. Minha biografia não me/te permite. Basta-me a deficiência crua do órgão visual para autopsiar o derrame lítero-vascular. Dispenso arco-íris em ampolas; basta-me a altura do ego careta que me derruba por trás. Não almejo me curar de álcoois, nicotinas, colas, maconhas, cloridratos de cocaína. Contentar-me-ei com ser curado da palavra.

11 comentários:

Alexandre (lexotan) disse...

O que dizer desse texto ácido e inteligente ? não sei, sou uma besta e não um pródigo como você.
Acredito ser suficiente dizer que considero impecável, irretocável. Muito bom mesmo, eu chego a ter inveja de sua verve, he he he ...

lau siqueira disse...

A palavra não vicia, conta mina.
há braços!
Lau

PS. eu quero a minha gravata.

célia disse...

Seus textos são muito fortes e bons. Em alguns momentos me assustam...éé...rss, eles desprendem uma energia muito realista das angústias humanas, nos seus piores momentos. Isso que vc faz não é para todos. Mas é muito bem feito.E instiga. Um bj.

RW disse...

[;)]

O Encanto do Caos disse...

Há uma precisão cirúrgica em tuas palavras.
Escarradas, vomitadas, sussuradas encantam e chocam, mas jamais comuns, previsíveis.
Horror & beleza para destruir a cultura de placebo que ainda assola nossa literatura.

beijo de luz prá ti!

Gilbert Antonio

Cássio Amaral disse...

Sou seu fã incondicional, e fã é phodda comentar.
Mas este texto é o puxar da guilhotina meu caro brother.
Gostei muito do desfecho, que é perfeito. A foto é ilárica, dei uma risada aqui na lan house.
Caco de vidro, como deve ser!!!
Abraço.

l. rafael nolli disse...

Puts, como sempre, dilacerante!

Paulo disse...

engraçado o ginsberg lá,
pois quando estou bonito,
acho que posso fazer kerouac no cinema
e quando estou feio, como hoje,
penso que daria um ótimo( nada mediano...) ginsberg.
E estou lendo o diário do kerouac com a foto que o ginsberg bateu dele, na capa, assim fico pensando na gente, em como é essa porra de nossa geração, rw, pois tb convivi com vagabundos e não posso recair nos birinihgts mesmo, mas ainda espalho livros entre as putas, que engraçado, são as que mais rápido devoram as páginas e me entendem...
O que faremos ?
Beijos.

Cristiano Contreiras disse...

Plenos sentires teu blog. Virei mais vezes.

.... disse...

Caralho...

Isadora disse...

eu catava o ginsberg fácin fácin...