30/07/2009

Ao fim de um dia

Permitam-me, deixem-me que eu apresente Maslav Daslov. Um obscuro funcionário de uma repartição ministerial. Vinte anos de serviço, nenhuma promoção, nenhum êxito digno de nota. Calvo, baixo, quadrado, de grande barriga, fato cinzento, peúgas passajadas, vida cinzenta, futuro irremediavelmente cinzento.
.
Uma noite*, meteu-se-lhe na cabeça que queria mudar de vida. Não podia suportar, por mais tempo, a sua amorfa existência. Decidiu tomar uma atitude radical e, com uma luzinha nos olhos, pensou num grandioso plano. Ora, o plano era a tal ponto brilhante que todo o sangue do coração lhe subiu à cabeça e um suor frio deslizou pela testa.
.
Assim, na manhã seguinte, entrou na repartição e desatou a morder ferozmente os colegas, um após outro. Fincou os dentes nos braços, pernas e orelhas de telefonistas, secretárias, contabilistas, assessores, porta-vozes, relações públicas, engraxadores e assim por diante, acompanhando cada mordedura com terríveis e agudíssimos uivos. Mas Daslov não se limitou aos níveis inferiores da hierarquia, também mordeu o chefe de secção no nariz e deixou dois dentes pregados na canela do director. Estava lançado; nada nem ninguém o poderia deter. Finalmente encontrara a sua vocação, um modo de vida bem sucedido.
.
Os resultados do plano superaram de longe as melhores expectativas. Ao fim de um dia, tinha mordido todos os colegas, era o funcionário mais respeitado da repartição e a sua fama galgara já as mais imprevisíveis barreiras. As altas chefias desceram dos largos gabinetes para o felicitar com um sorriso do canto direito ao canto esquerdo da boca. Foi automaticamente promovido e recebeu ainda uma gordíssima bonificação.
.
Mas não terminou aí, como é de presumir, a história de Maslav Daslov.
.
_____________________
* A noite estava quente e húmida, e as copas das árvores flutuavam pesadamente como candeeiros mortiços. Creio que isso determinou os factos subsequentes desta história.
.
.
(Do blogue de Rui Manuel Amaral).

29/07/2009

Trístico


(da série Engavetados)

Dois tapas: um no branco no preto e outro no preto no branco

Constranger-me-ia sentar à mesa com tanta gente detentora de elevado padrão de vida. Não que com isso ateste experimentar um agachado status, mas porque não vislumbro idoneidade de minha parte para distinguir um padrão de outro. Não me compete. Imprudência delegar a meus juízos a tarefa de manifestar orgulho ou vergonha, seja de qual for o padrão de vida, se detenho em meus domínios um padrão de morte vigente.
.
Um homem comporta idéias; um corpo, casulos. Grandes idéias não se comportam. Cada um com sua idéia larval aspira à patente da mariposa, embora não consiga ir além do pó nocivo pousado em suas asas. A mariposa voa e ao mesmo tempo transporta a conseqüência tóxica que reveste e hidrata suas asas. Só sobe se aceita levar o veneno a cair dos céus – sobre os olhos dos que não voam além do que vêem.
.
.
(da série Engavetados)

28/07/2009

Testamento

Nasci do enlace safado entre a poeira e o mofo Mas não em virtude duma genealogia sacana tentei dedicar viçosos suicídios O inaugural, inclusive, ocorreu quando, nascituro, afoguei-me em vinagre amniótico Mesmo no pós-útero mantive-me leal a um sem-número de investidas! Soçobrava, emergia, cabeceava bolhas, e diretorreto uma vertigem não menos zombeteira do que filha da puta, no múnus de anjo prontificado pleiteando uma pena a mais, retirava a tempo o que de mim boiava por sobre aquela bílis Recordo também do impulso com o qual pulei dentro da sombra e, como era e foi pra ser, falhei na decadência Escolhi a sombra errada (sem fundo, não parei de cair: pior que estar no fundo do poço é estar no poço sem fundo e sem eira nem beira que não beire nada além da loucura); em contrapartida, aprendi a apreciar o quanto apraz a sensação escorregadia de vida inerente ao ato de esboçar testamentos Eu, o de cujus sucessione agitur, lego o que neste consta ao primeiro punhado de vermes que a luva bacana da medicina legal flagrar domiciliado na derradeira massa fujona Ratifico: uns únicos parasitas embaraçados haverão de herdar tudo! E, apesar desta generosidade macrocósmica e inconteste, os diminutos beneficiados ainda praguejarão, pública e ingratamente, pra que todo o inferno e dissidências ouçam e não me acolham, sob a alegação de que fui um ordinário objeto da semiótica, deixando aqui ossatura que não cheira, não fede, e nem o que da língua escorre, gruda ou arde
.
.
(da série Engavetados)

25/07/2009

P R O C U R A D O
.
RECOMPENSA A NEGOCIAR

Delirium tremens

Socorro! Degolar-me-á a compulsão
Que se ruma sentido ao Álcool enjaulado.
Assim sendo, prostro-me: com pus hão
De celebrar, tu e esse demônio ao lado.

Trêmulo. De Satanás o sangue mui
Apraz: bebi-o, e vomitei uma alma viva.
A lasca de Rocha* a um Pedro, que rui,
Pra incrustar o exorcismo, é tempestiva?

Socorro! Credulidade sã, inconsútil...
Bebe, mas invoca a Onipotência útil,
Que quebre a tempo esta herança.

Maldito o cálice com veneno tinto!
E sê cerceada de todo solo, recinto,
A videira próxima à minha criança!
.
.
(da série Engavetados)
.
.
_________________
*atinente, também, à minha filha tão estimada e bem-vinda, e à sua genitora, haja vista que ambas têm o sobrenome Rocha.

Balada melosa

Deglute a pica suja até o caroço
A desdentada com bafo de bosta.
Lavar os seios com porra ela gosta:
A cafetina, molestou-me moço!

A glande enforca na corda vocal,
Na garganta arrombada com mijo.
A leprosa fétida com hálito fecal
Sorri quando se lhe enfia o braço rijo.

A vagina da Poesia – noviça nociva! –
Há de ser fervida em sêmen ácido,
Causticando seu ponto gê flácido:
A desgraçada me pariu com vida!

Introduza todos inimigos no cu dela.
Enfie santos, demônios – tudo soma.
A vadia que engoliu minha goma,
Transpira e exala o que mela.


(da série Engavetados)

19/07/2009

Desmonte

Em sua fábrica inacessível
Deus – após reiteradas tentativas –
Montou o primeiro humano
Que logo aprendeu
A fazer o segundo
Que por sua vez
Construiu o terceiro (estragado)
Que (abandonado na sucata)
Improvisou uma perna manca e rastejou
Rumo ao inferno mais conveniente
Lá erigindo a própria fábrica
De desmonte de deuses
Perfeitos.



(da série Engavetados)

04/07/2009

Frontal

Morrer é acordar
Dentro em sonho
Ou dormir sobre
O ombro pontiagudo
Do pesadelo.


A fadiga, discreta,
Cochicha, em latim, à persiana
O anoitecimento do ofício.


Morfeu escuta e acorda,
Revigorado,
Sem lembrar
O que sonhou.


O sono
Configura a censura
De um mundo gêmeo
Pelo outro.


O sonho e a realidade
Se unem umbilicalmente
Mas ambos desconhecem
O que os nutre.



(da série Engavetados)

Vade

Misericórdia, Satanás,
Pois deus sequer se arrependeu
De atos blasfematórios maiores
Tampouco de incitar
Ereção nos pequeninos.


Misericórdia, Satanás,
Porque deus acareou
Vossos serviçais pelo dorso
E assoprou o clarim anunciante
Sem purgar o fôlego anal.


Misericórdia, Satanás!
Ele imitou tão fielmente Vossa voz
Mas acatou regras a todo tempo
Levando à danação o curso evolutivo.


Misericórdia, Satanás,
Pois ele hesitou em enfiar
O seio flácido da maternidade universal
Por entre os próprios passos:
Os que, trêmulos, equilibram
O animus necandi umbilical.


Graças a deus, Satanás,
A dessemelhança
Entre o bem e o mal
É um crime sutil.


Mas
Vade retro, Satana,
E nunca mais aconselhai
O vosso deus a me exorcizar.


(da série Engavetados)

02/07/2009

Nsc

Cansei de percorrer por aí
Seguindo rastros de mundos.
As placas norteiam, ubíquas,
Que estou em sentido contrário.
Ora. Não almejo senso nenhures
Sequer acredito em sinalizações:
Placas só me convencem
Para o apedrejamento.


Não me cativa o onde
Para onde elas apontam.
Placas são para os que seguem
Caminhos por fora.
No átimo azado, não sigo – cego.
Aprendi com os atalhos
Que me seguiam
E se perderam.


Um dia me vi me vendo.
Retenho certeza
Porque ainda estou cego.


Ambigüidade
É pecado da luz.


Adentrei a exclusão.

Palavra minha,
Embrião de demônio mudo;
Silêncio meu,
A rubra pata
Do latido mártir
Que perdoou a poesia.


(da série Engavetados)

01/07/2009

Epônimo

Sou o resultado do fato feito ato. Díptero detrás do lóbulo bíblico e à frente de LaVey. Ghostwriter de menus e co-tradutor de Paracelso (original) para o guarani-iorubano. Guardo Derby extra-forte em caixinha de Marlboro Light, portanto prefiro fumar lightsticks sem filtro. Com 5 anos de idade venci um concurso ao desenhar Gene Simmons declamando Arkadii Dragomoshchenko. Em vez de escrever 'ao invés' uso 'em vez'. Batizei minha iguana de Ayahuasca enquanto servia chá de lírio transgênico ao meu peixe betta splendens. Sei todos os algarismos de meu cepeéfe de cor, embora não tenha a mínima noção do paradeiro de meu chip RFID. Recebi o PASEP e uma traição conforme combinado. Utilizo arnica para cicatrizar xícaras trincadas. Alguns ETs contestam minha existência. Roo unha do pé (dos outros) quando me lembro que sofro de ginecomastia blenorrágica. Sou bom marido de morenas infláveis e inflamável quando não inflam. Sóbrio não, sem beber: meu Hi-fi = Sci-fi. Inventariei a lucidez pros vermes. (...) Quem vive dela é a funerária e/ou. Sou o instável resultado da rixa entre pirotecnia forense socialista & minimalismo tântrico individualista.

15/06/2009

Claro, ele amava Maria

Claro, ele amava Maria. Ela, em meio à turba apática, perdeu-se pra salvá-lo do vício, sarjeta e crime. Jesus era foragido, e dormia ali, se é que dormia, encardindo-se com outros viciados em estórias. Maria tenta passar por ele, mas sua empatia freou ali mesmo. Jesus pediu algum dinheiro. Ela disse que não, mas que um pão, sim. Dali adiante, nos arredores do terminal rodoviário, o amor desencravou-se. Visitas diárias. Roupas limpas, sapatos e audições apertadas. Jesus tomou banho na rodoviária e aceitou o convite de acompanhá-la. E em que tenha pesado todo o preconceito, perseguição e escândalo que os coroavam, assumiram-se.

Jesus e Maria, 7 anos de enlace. Jesus chora. Precisa entregar a Maria uma carta, mas não sabe como. Jesus, que agora cumpre pena em regime semi-aberto, não sabe mais onde enterrou Maria.

08/06/2009

18 segredos para excitar seu amor

1. Dê muita importância às preliminares. Não se preocupe com o tempo. Conte a história de Cartier, o inventor que presenteou Santos Dumont com o primeiro relógio de pulso.

2. Mostre-lhe imagens eróticas. Fotos de Sta. Teresa de Lisieux, Regina Casé ou ninfetas de burca nunca falham!

3. Leia um conto ousado ou convide-o para ver um filme erótico após uma missa romântica na Canção Nova ou terço bizantino declamado por Pe. Marcelo Rossi.

4. Partilhe as suas fantasias sexuais com o seu companheiro. Não deixe de contar todos os pormenores, fale do quão grande, grossa e potente era a piroca de seu ex-namorado.

5. Experimente elementos afrodisíacos. Convide todos os maus elementos que vagam nos arredores do terminal rodoviário.

6. Componha o ambiente propício ao amor: perfume o quarto com um repelente que use refil e tenha cheiro de pólvora ou opte por uma iluminação violeta fotocatalítica que atraia pernilongos e muriçocas.

7. O toque pode excitar. Deslize as suas mãos calejadas pelo corpo dele e toque-o com as pontas das unhas postiças (as quais, a fim de se evitar um desastre, devem ser coladas com Super Bonder), mas não sem antes verificar se ele lavou o ânus. Detalhe: peça-o para ingerir 300 mililitros de óleo de rícino 2 horas antes do banho.

8. Faça-lhe uma massagem com um óleo (vale o de rícino, pois com tamanha crise, também vale poupar) ou Cimentcola.

9. Beije o corpo do seu amante. Comece pela boca, introduza a língua levemente numa narina, faça movimentos circulares, retorne à boca, e vá descendo pelo corpo: mordisque os mamilos até sangrá-los, desça até às virilhas e parte interna das coxas. Estas duas últimas zonas são muito sensíveis pois estão perto da região onde ele tinha pênis.

10. Experimente fazer amor em locais diferentes. Pode ser num banheiro de lan house, no balcão do açougue, no altar da igreja, no carro do chefe, na escada rolante do shopping, num caixão vazio, num balde... Importante é o amor de fato, não o local onde ele se materializou.

11. Compre um baralho de cartas erótico e jogue truco com o seu parceiro. Também podem divertir-se com outros jogos como UNO ou santinhos de candidatos a prefeito e vereador.

12. Faça striptease para ele. Mostre como você fica bem sem jockstrap.

13. Experimente usar adereços sexuais, como vibrador, cacto, arame farpado, máquina de solda ou motosserra (aproveite as promoções da Husqvarna).

14. Amarre-o à cama com tiras de polietileno tereftalato ou, se preferir, imobilize-o com pregos nos pulsos. Se ele for filossemita, vai ter orgasmos epilépticos.

15. Sussurre-lhe ao ouvido, enquanto fazem amor, a biografia do Santo do Dia. (os de hoje: Santo Éfrem, Salustiano e Clodolfo).

16. Durante as relações sexuais, não hesite em experimentar "novas posições". Diga que você tem asco de ter sido comunista e que agora se filiou ao DVU: União Popular Alemã.

17. Façam amor em frente ao espelho – e nunca em cima dele. Vidros costumam “cortar” o clima.

18. Espalhe um produto no corpo do seu parceiro e percorra com a língua as zonas do corpo onde o colocou. Pode ser geléia, mel, iogurte ou sangue menstrual.

16/04/2009

Ateus, gays e fedidos: uni-vos!

Vou vender meu televisor. Ou quebrá-lo. “Recebe a cura, recebe a unção” – é o que ouço quando o ligo. Dos 7 canais abertos que funcionam, 4 têm conteúdo todinho cristão. Não dá. Globo, SBT e Record, os 3 restantes, não transmitem bosta alguma, salvo uma propaganda ou outra impondo uma ameaça ditatorial religiosa travestida de necessidade indispensável e promessa de vantagens. Daí fui navegar e li 3 textos: um do Mr. Manson, flertando com os agnósticos e gays enrustidos, equiparando-os com propriedade; um da Marjorie, sobre a inquisição atrás dos sovacos peludos; e outro do Alex Castro, sobre os reprováveis padrões de higiene e beleza atuais, encorpando o da Marjorie. “Por que cargas d’água agnósticos, bichas e higiene têm algo a ver afinal?” Bem. Olha. Veja. Saca. Dum lado, agnósticos figuram espécimes de ateus enrustidos, com tanto receio de assumir seu “lado” como quem se julga macho mas gosta de currar outro macho, e no entanto não sabe que não passa de um também boiola, embora no pólo ativo. É bicha do mesmo jeito, ora. A diferença é que, neeeh, ele o sabe, ah, sabe sim, e não admite. De igual modo, os agnósticos ficam enfiados no armário, e lá no fundo, bem escondidos e agachados, devem ter a consciência de que de fato adotaram o ateísmo como forma de crença. Mas entendo um pouco a situação. Religiosos (90% da população brazuca) afastam-se e tão logo perseguem irritados os descrentes, assim como a madame socialite dá bolsadas no hippie que a cutuca "R$ 1,00 a pulseirinha, dona!" Danem-se os ateofóbicos! Não fedemos, não fazemos mal. O ateísmo resulta da arte de levantar suspeita absoluta em torno da possibilidade lógica e necessária de haver qualquer tipo de divindade. Quem crê, carece de deus, contenta e se conforta com a presença de fé contra a ausência de prova; quem não crê, conforma e se contenta com a ausência de fé contra a presença de prova. “Agora me fala da relação disto com vaginas fedidas, pêlos, desodorante e boniteza!” Ora. O preconceito patente baseado em dogmas, sejam eles advindos da religião, sejam oriundos da indústria de cosméticos. A religião obriga a crer num deus, e assim se é digno do paraíso; a publicidade (o sacerdote da indústria) obriga a utilizar suas lâminas e aromas, recompensando-se com a atração de machas ou fêmeos ou ou ou. Phhh. Logo, tratam um ateu como gay fedido; um gay fedido como ateu; ou um fedido como ateu gay. Não dá. A presente aferição merece atenta observância, pois encaram os ateus como peludos fedorentos e, agora, pra piorar chegou, numa bela embalagem, direto da fábrica, o preconceito que vê a mulher que não usa Vagisil e Gillette como sendo igual ao homossexual que não esbraveja seu ateísmo em público. A indústria, especificamente o mercado de cosméticos, dissolveu em acetona a mente da sociedade, raspou o criticismo, besuntando-a com valores melequentos e hábitos nojentos, bem ao jeito das religiões em proa, valendo-se de táticas de embelezamento perversas. Os ateus devem assumir sua postura com hombridade, na linha dos homossexuais a marchar, em multicores, na Av. Paulista, anualmente; ora, pois. Você, agnóstico! Reconheça logo: comer o cu da Sheyla, Bianca, Rogéria ou Zenaide não lhe torna um varão respeitado, porque de mulher a Zenaide, Rogéria, Bianca ou Sheyla só possui o nome, por sinal, de guerra. Aproveita logo e assume que você é uma bichona atéia. Faça como o pessoal purpurinado que desfila na Parada Gay, e organize já uma Parada do Ateu. Viu, você ficou mais leve, fresco? Faça valer sua visão canhota. E você, querida mulher-mulher, não permita essa ensaboada cerebral televisionada lhe convencer que sua xota tem cheiro ruim nem que sovaco apreciado é axila raspadinha. Mentira. Maldade. Meu sonho é encontrar uma mulher peluda, “in natura”, e se possível que abra mão dos absorventes tradicionais. “Ó, musa, cadê tu?” Tragicamente, nem nos rincões onde as igrejas evangélicas mais radicais e primitivas resistem pude encontrá-la. Adoro mulher barbuda, com pêlos nas costas e cheirinho original. A mídia, este Leviatã, quer extirpar as peludinhas azedas modernas do gosto popular. Um cão não supõe que seu rabo configura uma deformidade física feia o bastante pra ser removida pelo seu amado e fiel dono. O rabo desagrada o dono, nunca o cão. O cão, que na verdade é um burro, mal sabe que há um rabo ali. A mulher de (não) tão antigamente desconhecia a matéria de que seus pêlos infratores mereciam tamanha represália. O pêlo é réu; desodorante e lâmina materializam o cumprimento da lei. Uma perna depilada e um sovaco lambuzado de Dove correspondem ao interesse totalitário-policial-repressor do marketing, não à livre preocupação individual feminina em face da sociedade e seu bem-estar. Desodorante e lâmina são acessórios ao certo dispensáveis ou estendem, artificialmente, a natureza corporal? Nsc. Prescindo de mulher cheirosa, macia e lisa e odeio bichas. Digo, admiro bicha e ateu autênticos. Isto vale pros machos-machos, claro! Falando nisto, propaganda infame aquela onde um troglodita extrai um desodorante Axe duma rocha, perde a barba prum vaporzinho barato e monta num mamute como se estivesse sobre uma Harley-Davidson. Pura lavagem cerebral. Grave anacronismo. Ora, a sociedade aderiu ao uso de desodorantes e barbear compulsórios, numa escala histórica, recentemente. Não subsiste nenhuma garantia de que naquela época homem barbeado, cheiroso, macho e temente a um deus faria sucesso entre os seus. Ah, alguém ainda quer comprar uma Gradiente tela plana?

02/04/2009

Paciência

“Baixinho...” (o celular toca). Alô. Oi. Cuméquivai, sumidão? Agora não, tô ocupado aqui com a composição dum personagem. Falô, schau! “...gorducho...” (o telefone toca de novo). Merda! A cobrar?! Tender não. Pff. “...misantropo e...” (o cedê começa a a a a a, tá arranhado). "... ..." Pernilongo. "... ..." Ognolinrep. "... ..." Por que 'sa cadela late tanto? Quiquié, Amélie? “...fuma charuto, usa boina, barbicha. Aí não, parece o Che. Nada contra, mas. Fuma cachimbo, carecão...” Tá latindo ainda?! Naaah. “...também é muito...” Vô terminar nunca. Quié mãe? Tá bom. Lá pras 3. Xeu terminar. "...e sobretudo amargo, impaciente. Seu nome, seu nome, seu..." Ei, volta aqui. Nsc. (O personagem toca fogo no cachimbo, gesticula um vaissifudê e se retira).

20/03/2009

Império da inocência

Se comprovarem que a advogada Paula Oliveira padece da síndrome de Mündchhausen, de loroteira ela passa pra pobre vítima; que fulano que furou o sinal e atropelou a velha padece de daltonismo, ele passa de homicida culposo pra pobre vítima; que beltrano que surrupiou um pacote de meias na Casas Pernambucanas padece de cleptomania, ele passa de ladrão pra pobre vítima; que o maluco austríaco Joseph Fritzl é doido porque pedofilia é doença de louco... daí vão dar a concluir que ninguém é culpado, que todos criminosos devem ser interpretados como meros portadores vitimados por alguma espécie de transtorno mental, logo seria injusto puni-los com uma pena privativa de liberdade (cadeia). Eu, hein!

21/10/2008

Docere, Delectare, Movere

...antes de suicidar os inquilinos do saco, um neurônio-policial, sem cauda sequer calda, aborda-me, e impõe que devo acordar sobretudo gripado à beça. Some a isso agiotas afoitos lhe cobrando em público (nas calçadas enchicletadas do ensaboado Orkut), demônios maconheiros lhe censurando enquanto você enraba uma bíblia em voga. Some ainda a frustração por não efetuar inscrição no Ídolos. Saibam que canto demais: mulheres, homens, mulheres-homens, homens-mulheres, mulheres-mulheres, homens-homens, mulher-mulheres, homem-homens, mulheres-mulher, homens-homem. A propósito, execro, nos embalos da panfletagem de um Pound traficando seu etnocentrismo imperial-fascista: fadas, ninfetas, secretárias eletrônicas, fardadas, pin ups. Por quê?

Humpf. Às escâncaras, brinco de maldito. Bordo sonetos toscos, escandalosos e profanos. Satanás é um enrustido; Cristo anteviu o orgasmo de Sade. Sim. Caricaturizo a porra do Baudelaire. Sim. Grosseira e pretensiosamente. Não me furto a esse luxo-lixo. Limpo-me em qualquer currículo donde não consta o quesito: "blasfêmias publicadas". Um arrogante que se preza, um histriônico e perturbado imune à lobotomização da censura dita "democrática" escancara as pernas a fim de que lhe enfiem outras tantas pernas.

"Erre Dáblio, você pega pesado!" Claro. Quero eliminar o excesso-sac(r)ossanto de meu corpo-copo. Almejo uma conduta-monstro ecoada da masmorra lautreamontiana. Sou um da puta filho mais quente que a pica do Tinhoso quando no cume da puberdade – em tempos idos, áureos, Satanás e eu queimávamos a rosca com a irmã-gêmea de Cristo, clone de um fanzine mal-mimeografado. Anacronismo? Ora: temporalidade constitui subjetividade, isto é, a alma desumana vaga entre todos os mundos interiores, inclusive no inferno-verbo, empalada por um mesmo ponteiro grande-grosso. Quero chocar, checar, tchecar (este último, seqüela da penetração a seco por Che, a putinha-mor da lésbica aboinada, cujo nome de guerra é Fidel).

"Quanta revolta, Ricardo!" Compete a mim extrapolar o pluripolarizado. Obtive tal visão quando um ícone bizantino, em gesso-gesto, escondeu-se dentro de mim, temente pela canonização. Desde então, atribuo-me o encargo de afrontar frontes ditas desgraçadas – qual aquelas que amordaçaram um de meus livros, sob a alegação de que não estou preparado para encurrar o verbo. Concordei. 18:42. Sou masoquista (uma dentres muitas seqüelas de um catolicismo embrionário). Quantos não me tacharam de possesso tão-só porque não arrisquei um fist fucking com um demônio-médium incorporador de um padre pedófilo casado com aquele pastor ginófobo (lugares-comuns, "eu sei" elevado ao cubo).

Frustração minha tange o perfeccionismo da androginia-suicida. Aliás, suicídio se traveste de vida quando me reporto a dogmacídio. Vida é puta fedida que cobra para sofrer por um valor-eunuco. Suicídio está para pleonasmo assim como virtude está para maldição rentável. Suicídio é chilique modernoso de quem se anula antes de autorrasurar. Eis. Ex.

A gripe me golpeia com um catarro que me tosse para dentro. E o agiota aceita uma compota recheada com sêmen de Pio XII no 5º estado material. Os demônios-usuários mascam capim araxaense e perdoam o presente texto. Arnaldo Saccomani jura que não tenho talento para cantá-lo. Juan Evo Morales dificulta o acesso ao peido boliviano. Uma mulher-mulheres insta em casar comigo em pleno Sonico: novo drive-in cuja audiência cochicha enquanto o Orkut geme a estabilidade do gozo-coloratura precursor. Um espelho de rodoviária me asseverou que sou bonito, talentoso, e que o Diabo gosta de quiabo mas não de rimas. Sou. Ou. Quem se interessar por ____________ (grife Maldito®), escrepa-me! (do ianquês "scrap"). Quem não, não quem? Compare-o. Foda-me-se. Sorte de Hoje: Duas ressacas não ocupam a mesma taverna no Inferno.
...
...
Texto chupado do Prepúcio.

10/09/2008

Amigos


Eu os amo como amo os desgraçados que censuram meu xingatório; como o demônio Zé Buceta que me proíbe de blasfemar; tal qual os que esparramam suas tragédias e suicídios modulares: como válvula de escape dum bem-sucedimento insuportável.

05/09/2008

Céu e inferno: do simplismo maniqueísta unilateral à variabilidade cíclico-conceitual (beta)

Inferno e céu de fato existem. Do ponto de vista empírico, psíquico, moral, social e politicamente falando – e a visão não se encerra em tratados teológicos recalcitrantes centrados num estudo do post mortem. Inferno e céu existem sim, mas não se os admite apenas numa acepção preventiva preconizada pelas tradições judaico-cristãs e afins, notabilizadamente de modo coercitivo e unilateralizado. Tanto a dor gerada por um inferno quanto a ocasionada por um céu se realizam, estão comigo, no mundo real dos supostos vivos. Lugares de fácil acesso, o inferno e o céu só não são bem-vindos pelos vícios decorrentes de ciências matemáticas vulgares, as quais os consideram dois números, um par, dois fatores, dois conceitos. Tem-se aparentemente a noção de que, quando se aborda o céu e o inferno, há o ato de se deter em coisas numeráveis, pois a linguagem assim os determina ao descrevê-los. Sei, parece absurdo, mas céu não diz respeito a uma só idéia-número nem inferno a uma outra e tampouco as duas, quando somadas, representam apenas duas coisas. Também deve ser repreendida a noção de que ambas as coisas se excluem sob a fidelidade da proporção antagônica de cunho maniqueísta, ou lei vaga da atração dos opostos. Aqui, a matemática não adentra; em contrapartida, a lógica, daqui, nunca se retira.

Céu e inferno constituem pessoas; pessoas são lugares os quais se freqüenta, visita – compulsória e invariavelmente. Não se experimenta um lugar-indíviduo abrindo-se mão da elasticidade de cores, cadências e símbolos. Céu e inferno são, a certo ponto, lugares adiáveis, mas nunca evitáveis. Valendo-se da explicação pela via metafórica, céu e inferno são becos-transeuntes. Sim, becos móveis; lugares sem saída e ao mesmo tempo em constante e ininterrupto movimento. E em expansão, tal qual o crescimento demográfico. Sendo assim, infere-se, provisoriamente, que um incorpora o outro, isto é, um conceito absorve o outro, e na mistura alquímica supostamente feita a dois, um sobressai. Diante da impossibilidade de não adentrar tais lugares-gente, não se pode recuar do seguinte conceito: céu e inferno (que não formam um único par) se fundem numa só pessoa. Todavia reitero: esqueça-se, por ora, a função numérica de soma e subtração, pois quando faço alusão a esta pessoa-lugar, falo de algo expansível tal qual o tempo – e este é vagamente adestrado pelos números elementares do relógio, pois o tempo também não tem explicação razoável, e toda explicação baseada em exatidão chafurda em convenções, em necessidades transitórias criadas a fim de auxiliar verdades imperfeitas.

O célebre café, ainda ebuliente, de Sartre (“O
inferno são os outros.”) carece de reestruturação formal, pois apresenta deficiência semântica e denuncia imprudência ontológica: não se sabe ainda apurar quem de fato inferniza quem: o céu ou o inferno?; se o inferno são os outros (alude a outros infernos ou a outros céus?), ocorre por que toma-se por céus ou infernos estes outros? Ora, nem mesmo o verbo “ser” favorece o esclarecimento. Não seria mais preferível, no caso, empregar o inferno “é” os outros a o inferno “são”, haja vista que, se ainda não se pode precisar o que uma coisa é de fato, conseguintemente não se vê sentido em descrevê-las valendo-se de verbos numéricos (verbos de ligação conjugados no plural)? Nsc. ‘xa pra lá... Noutro rumo, penso também que não só o inferno inferniza, levando-se em conta o fato de se estar diante de terceiros, posicionando-se à frente dum céu-lugar magistralmente cíclico, tal qual o inferno-pessoa a me circular. Se não posso escapar do céu nem do inferno, já estou condenado, e se condenação pressupõe inferno, não há céu algum. Paraíso seria transitar entre um e outro. Aqui, então, e afinal, é o Éden também, no sentido de se oscilar entre um e outro indivíduo-lugar. Mas o maior inferno de todos se dá diante da linguagem e do fato de não ser possível evitá-la. Não há nenhuma possibilidade de se estar diante de algo anterior à linguagem.