29/07/2007

Dado de 5 lados

Aos paraninfos Paulo Castro e Ana Peluso
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Mal atherrissei em sollo russo, recebo um ‘e-mail’ trazido por um pombo corrêo campineiro. Como eh cediço, soh poderia tratar dassunto conphidencial – se bem q torci para q fosse uma carta bomba actômica, tamanhera o phosso destar trabalhando no almoxariphado duma sauna moscovitta (melhor emprego q consegui, apòs cumprir pena numalcova masochiana do Castello d Neuschwanstein: condenado por vender poesia em phormatto pastilha, ensaeo em phormatto ampolla e enciclopèdia em phormatto dràgea, pois soment os textos em phormatto ‘livro de papel’ obedeciam, aa risca, a norma cultta germâneca, segundo constava na senthença, por sinal, inintelligìvel parum spiaum incapaz d pronunciar ateh mesmo uma intterjeiçaum em russo). Cruzei os dedos pra q tivessem menviado uma carta-granada ou allguns rublos pra comprar pollônio 210, pois meo dorso já não maes agüenthava a bigorna-falha na missaum anterior: descobrir ond os russos haviam scondido a ùnica amosthra congellada d varìolla existhent no mundo. Falhei bonitto. Tambèm pudera: a Rùssia possue a maeor concentraçaum d ‘freezers’ por picoleh cuadrado.

Sem avisar o gerent Serguei Putin, irmaum caçula d Vladimir Putin, presedent da Rùssia, fui ao banheiro, tamanha a curiosidad e senso d desconphiança jecatatuana. Entro. Puxo a porta. Travo-a. Arredo. Apalpo e desço a thampa da privada. Cuando vou sentar sobre a thampa, erro o assento e caeo, e soh me dou conta da falta d luz cuando jah stava em peh. Mesmo dotado d meo tatto apurado, naum localizei janela, portilha de poraum nem de sòtaum sequer um rallo ou alpendhre d ratto. Em conthrapartida, um embattumado cocô dava braçadas dignas doiro no Pan, dentro da privada. Peguei a iguaria e saciei a phome, comendo-a viva, sem piedad e pudor. 5 minutos apòs a repheiçaum, caguei o mesmo cocô, mas contiv a vontad dingeri-lo novament, sob o receio d que macometesse o sentimentto d gulla. Minto. Planejava soprar o cocô ateh endurecê-lo, a phim d arremessah-lo conthra a malditta porta e quebrah-la (considerando o fato d ela ser d isopor, naum seria taum diphìcil assim). E naum eh q consigo secah-lo! O adob suscitaria inveja em cualquer pedra. Arremesso-o, mas no exacto momento em q Serguei Putin abre a portha. Acerto em cheio a boca do Putin. Naum a do gerenthe, mas a do Putin presedent, q visitava o irmaum e phreqüentava com asseduidad sua sauna.

Havia apenas o arrulho do pombo corrêo consthruindo ninho denthro duma caixa vazia d Stolichnaya. Tomei um tremendo susto caquele uuu. Berrei e, na medida q gritava, o pombo uava, e na medida queu uava, o pombo gritava. Daì Serguei Putin scutou e correu ateh o banheiro. Todavia soh era possìvel destrancar a porta do lado d denthro, o q ser-me-ia embaraçoso, pois se naquelle breo era complicado ateh mesmo ler o meo ‘e-mail secretto’ scrito em braille (o q corrobora o caracter visionàrio do remettent), comencaixar a chav no seo devido buraco?

Naum consegui enfiar a chav (faltou lubriphicaçaum?), embora, coa sollicitude e erudiçaum do pombo, pelo menos deciphrei o ‘e-mail’: a missaum se resumia em ler e apurar a cualidad de 5 authores/obras, cualquer obra deles, a meo crithèreo, resenhas as quais deviam ser dactilographadas numa Remington, na fonte ‘Times New Roman’, tamanho 12, e, por derradeiro, serem devidament publicadas em meo aparelho K7. A missaum a mim designada compreend uma epècie d corrent q, se quebrada, leva aa mort o remettent (anterior a mim).

Naum consegui lograr êxito coa penetraçaum da chav no seo respectivo buraco. Mas naum em virtud do problema scuridaum, e sim porq ela se phazia incompatìvel com o buraco. Naquelle azado àtimo, redescobri minha mascullinedad, como se houvesse em mim abaixado um tardio MacGyver: a fechadura soh aceitaria a chav d quem usa o banheiro phemenino.

Exthraditado, aguardo o julgamento. Agora hei de usuphruir do conphorto desta cèlulla d pao a piq (privellègeo concedido a diplomados). Vou partir pra(pro) resenha/comenthàreo das(dos) taes obras/authores. Mauns aa obra. Vou screver no phormatto SMS. Envio os rascunhos aos poucos.

4:30 da mattina. Dezenas d caminhoens buzinando em unìssono: eh festa do caminhoneiro. Meiacordei, sob o embaço do sopor, e vi, deitada ao meo lado, uma carretta. Enrollada em meos lençòes accetinados. Teria eu dormido cum 'Transformer'?

Texto scrito conphorme o Acordo Orthogràphico da Lìngua Porthuguesa, em vigor desd 2009.

Obras: Ovelhas que voam se perdem no céu & Dentes guardados. Autores: Daniéis Pellizzari & Galera, respectivamente. Avaliação: 5,1 (a nota na verdade é 3,5, portanto decidi aumentá-la porque Galera é um baita bofe)
Portões adamantinos do inferno! Quem superar a torção nasal após ler os dois primeiros contos de Pellizzari, deparar-se-á com o conto-zênite do livro, intitulado “As boas maneiras do acaso”, cuja mensagem (contrapondo-se à tática do autor de expurgá-la a todo custo) nos diz respeito ao quanto nos prontificamos a reclamar, de tudo, automatamente. Este, um conto-aforismo poético (de apenas 3 linhas), funciona com inteligência, feito sob o rigor e precisão requeridos em aforismos, no caso, dando as cartas ao paradoxo. Ou exagerei: não vai além de uma tirinha destituída de desenhos-balões-quadrados?! Um outro (onde chove muita vaca, vovó, Daniil Kharms) me beliscou: influência direta deste último. Pellizzari segura uma narrativa centrada na absurdidade cênica e nonsense, nada original ou convincente. Sobressai também “História de amor nº 17”, onde o varão tenta surpreender a varoa, no 'feliz aniversário', com um prato requintado, comprado numa esquina. Mata-o bem no estilo terror chanchada e, devido ao desajeito típico de um neófito ao lidar com iguarias, acaba por prepará-lo como churrasco. A mulher, quando vê a mesa destoantemente nos trinques, quase sopapeia o homem; estraga o jantar à luz de velas, pois ele coloca na mesa – inflado de romantismo e boa-fé – talheres de prata, candelabros e vinho: luxo inadequado para se juntar ao trivial churrasco/farofa (chimarrão versão comestível). Morais do conto (de novo contrario um livro avesso a morais da história): 1ª) o homem não errou em comprar/matar a iguaria a fim de saboreá-la na companhia da amada. Não, longe disso; ele vacilou tão-só porque não soube como servi-la. Prataria se usa em pratos finos, jamais em churrasco. 2ª) a única coisa com a qual a moçoila deveria se preocupar (o infanticídio, flagrado apenas pelas lentes do leitor-voyeur) jamais poderia passar por sua cabeça, remetendo à tendência moderna de se conferir primazia ao supérfluo, em detrimento da descartável vida humana. A mulher (sob tepeême?) deu um faniquito com o menos (ou nada) importante: as pratarias, ignorando a pulsante boa intenção do homem (e a procedência da comida, como disse, revelada apenas ao leitor). 3ª) a melhor das intenções não repara uma cagada, por menor que ela seja. Ainda com Ovelhas em comento, cito o 5º excerto do simbólico “Diotima”, onde, um dos assaltantes, mascarado de diabo, ao render as vítimas e as obrigar ao ajoelhamento (alusão ao “onde dois ou mais se reunirem em meu nome, far-me-ei presente” – São Mateus, cap. 18, Vers. 18-20 / Esta é a palavra de Deus, palavra de Salvação), recria, a partir duma situação-liturgia, uma chamada ao ancestral duelo, em que o mal, invasivo, imprevisível e ímpio – e ciente da surdez divina ao apelo dos fiéis –, triunfa sobre o bem, mesmo em território inimigo, isto é, sobretudo no interior da igreja (simbolizada pelo casal unido e prostrado), subvertendo a idéia de imunidade concedida aos devotos – de um deus covarde ao ponto de abandonar seu próprio asilo. Simpatizei-me com os contos supracitados, embora pequem (assim como o livro todo) quando da superestimação duma coloquialidade infantilizante e passiva, emparelhada às canções da Xuxa (e olha que Galera consegue ser pior). Se de 18 contos safam-se 3, estamos diante dum subproduto, presa fácil do Inmetro.

Intimidam, de fato. Fico timidamente desgostoso em citá-los. Típicos livros a visar a inibição do efeito tchan-tchan-tchan. Descambam no blasé placebo. Ou incrementam os contos(da carochinha) utilizando o chiste visível em seriados do tipo "Eu, a patroa e as crianças". Âââ. "Parece que um [livro] continua o outro”, alertou o poeta L. Rafael Nolli. “Mas quem deu continuidade a qual?”, perguntei. “Vou chutar: Pellizzari”, completei. (Dentes Guardados + Ovelhas que voam = 1 livro escrito a duas mãos {de dedos negros com unhas postiças?}). São livros em formato tobogã: ambos revelam lá seus momentos de altura, mas terminam lá embaixo. Dentes Guardados indica vocação para se adaptar à cinematografia, não se ajusta à literatura propriamente dita, laureável, desafiante. Prestou um desserviço à literatura, agindo com imprudência no tocante à eleita linguagem: a chinfrim. Tratam-na como se fosse um postulado padrão de execução alimentícia. Muito do que relatam já se faz há tempos, existe baiçolando por si só, por aí, de mãos atadas com o vento. Sócios duma rediviva editora batizada de Livros do Mal (ironia-bocejo?), escrevem municiados de certa dose de carolice. Se escolheram rezar a cartilha do malditismo (sim, maldição não é dádiva, e sim um artigo vendido numa queima de estoque!), deveriam mudar o rumo, prementemente, e vestir paramentos. Escrevem contos inanidos, somalianos, esqueléticos: único aspecto deveras assustador dos livros. Se nem a geração beat/junkie me convence, imagina a geração net, precursionada pelos Daniéis. (?) Apoiá-los implica em assumir o mecenato de Sabrinas, Julias e Biancas da vida. O festejado Galera, embriagado com o champagne-estrelato, empanturrou-se com as benesses e puxa-saquice de séquitos incautos. De seu primeiro rebento, sobrevive apenas 1 único conto: Manual para atropelar cachorros, o qual recebeu adaptação teatral de Mário Bortolotto.

E pensar que Mojo (nome pelo qual Pellizzari atende ao seu clã) já formou banda de black metal... traduziu e leu bastante coisa maldeeeta, clássica, rara e atípica. (?) Escreve com acanhamento. Utiliza temas mais comportados que os de Enric Larreula, autor de Bruxa Onilda; mais apoucados que os de J. K. Rowling. Nem parece ter conferido a biografia das bandas de black metal escandinavas (de uma delas que tocou na Cracóvia, em doismilequatro) ou visitado o site da BME Encyclopedy, não aplicou nem dominou os princípios indesvencilháveis da ‘Trayectoria de la Mano Izquierda’, filosofia ditada pelo Templo de Set (Set, o deus-príncipe das trevas da mais alta antigüidade, cultuado aproximadamente há 5000 anos a.C.). Outro ponto merece caneta florescente: o sotaque gaúcho incorporado aos textos. Galera nasceu em São Paulo; Mojo, amazonense, mas ambos se fixaram em Porto Alegre. Ou seja, nenhum deles é genuinamente gaúcho. Bah, isso não vem ao caso? Naturalizaram-se tchês. Assim sendo, por que crivar sotaque, abusar do tu conjugado em terceira pessoa? – a não ser que tenham migrado para o sul ainda dentro da proveta. Bah.

Nasci em e freqüento Minas, nem por isso falo qual o Chico Bento. Nem Terência, uma vizinha de Salvador, há 25 anos instalada em solo mineiro, sofreu o prejuízo do sotaque baiano. Os caras fazem questão, forçam a base do tu, soando quase caricato. Um dia “de solzinho” ainda receio descobrir mensagens subliminares nos textos dos fulanos, exortando o movimento separatista do Rio Grande do Sul e Estados limítrofes. Humm. Duvido. Eles não dispõem de tal competência. Galera recorre de modo saudosista à sua juventude, naturalmente traçada e afetada pelo 'american lifestyle', pecando pelo excesso de lantejoulas beatniks e minimalismos bukowskianos, não alcançando o mesmo (e pretendido) choque destes. Ambos os livros [Ovelhas e Dentes] não resistem a duas leituras. Fácil domá-los. No máximo, rugem um efeito surpresa de indiferença, nada mais, só que uma mesma surpresa só funciona uma vez. Eles mantêm-se fiéis ao fluxo de imagens quase sempre linear (não é à toa que um romance de Galera se encaixou nos moldes cinematográficos), e manifestam descaso atinente à invenção de princípios, conceitos, encruzilhadas, novos caminhos ou golpes baixos.

Cito-os, de mãos dadas e aliançados, pelo fato notório de adotarem a mesma mesura (mísera em figuras de linguagem, na narrativa, recursos sugestivos, rigor na construção ou desconstrução, subtexto, metalinguagem, trama, enredo, criticidade, personagens, texturas, janelas, muros, labirintos e porenquantos). Levaram a sério a panacéia: optar pelas menores e mais usuais palavras; parcimônias verbal, adjetiva e adverbial; usar a matéria bruta. Texto, quanto mais enxuto, mais FUNCIONAL e zzz zzz zzz. Sei não. Fusca é uma coisa "funcional", nem por isso convém classificá-lo como carro. Bukowski e Fante personificaram estes, digamos, recursos, logo repeti-los não faz sentido. Dentes e Ovelhas parecem, dada a patente similitude, livros gêmeos siameses, tamanho liame entre ambos no quesito tudo, pois só se diferem nos temas. Reitero: Mojo + Galera = mesmo autor. Uma tiete-leitora do Ovelhas asseverou, emocionada: “(...) me dão medo os contos que Pellizzari escreve”. Outro: “Galera conseguiu ser menos agressivo que Pellizzari”. Hilário: desde quando Pellizzari soou raivoso? Só se for uma “violência débil, que fabrica o disforme...”, segundo Vladimir Jankélévitch. Vá ler Contos Plausíveis de Drummond, “meu fi”, tenha dó. Nelson Rodrigues, O. Enry, Poe, Guy de Maupassant, Tchekov (este, Galera referencia em um dos contos, mesmo tendo aprendido patavinas com o mestre). Causar-me-ia medo ver Diogo Mainardi posando ao lado de Lula, numa foto comemorativa da eleição de Supla para Presidente da República; causar-me-ia horror Diogo Mainardi pedir a mão de Mina Carta em casamento. Galera e Pellizzari têm o seguinte consolo-bússola: Dentes e Ovelhas foram 'debuts' (eclipsados por uma bolacha). Traduzem bem o que significa a vida, no sentido de ser algo que se tolera uma só vez.

Pro cu de Ramsés. Enquanto uns se arregimentam à panfletagem do hermetismo, abolindo a comunicação entre leitor/autor quando da inserção das alienígenas palavras de ventre pirahã, outros pasteurizam a linguagem aos brados, pedestalizando a coloquialidade batida, elevando-a à condição de Grão-Mestre. Aquilo que se verte facilmente para o cinema não faz jus à chancela literária. Quando estamos diante duma obra de difícil (ou impossível) adaptação para o cinema, significa estarmos diante da legítima literatura – o que não sói no caso dos Daniéis, precipuamente no do inoperante Galera. Blasonam: o mérito deles não se deve à tentativa-ultimato (frustrada) de convencer o leitor de que o conto-piscadela (de vida veloz e morte súbita) prescinde de sentido, mas ao fato de terem conquistado a façanha de não dizerem nada além do que não foi dito. Desconheço os livros posteriores de Galera, mas se eles ziguezagueiam sobre a mesma linha de Dentes Guardados, não seria muito fogo de artifício para pouco mérito? As ovelhas de Pellizzari deviam ter permanecido firmes no pasto; os dentes de Galera bem guardados (bem como meu livro de estréia).

Obra: A lua vem da Ásia. Autor: Campos de Carvalho. Avaliação: 10,5
Sem dúvida, catequese compulsória, instituída por decreto por algum presidente autista de um Estado gasoso. A lua vem da Ásia é a Caixa de Pandora da indignação consciente, só tornada possível pela via da loucura. Um romance-fractal. Em A lua vem da Ásia, ressalte-se a influência certa de Lewis Carroll, Joyce e seu poodle Beckett. Obra salpicada de Beckett, ultradadaístas mais cerebrais e sujidades impecáveis hauridas durante a ditadura militar. O narrador, figura desprovida de identidade definida. Um andarilho no País das Maravilhas, sem nome, idade, naturalidade, cidadania, familiares, mas que freqüenta com assiduidade tudo e todos, sob a torrente do pesadelo a fazer cócegas. Cecê nos encosta na nuca a metranca roubada de Sócrates (personagem-ouro que, segundo o narrador, é o único negro assim batizado em todo o mundo), e nos convence ser tal ameaça um cafuné. Cecê extrai seu universo particular impossível como se estivesse a espremer os suculentos cravos ali na face do "se vira", flertando com o bon sauvage de Rousseau. Em momento algum o narrador de A lua tenta apaziguar o desconforto causado no leitor. Visa, de tal modo, salvaguardar o próprio bem deste. Típico livro a conseguir a proeza de iniciar um colóquio com a sombra de terceiros, sem que a própria sombra se enciúme. Obra com pouco mais de 100 páginas, com mais de 99 trampolins, e com 107,59 becos sem saída, holográficos. O narrador parte para a guerrilha, armando-se até os miolos com seus lúdicos pesadelos. Salta para o fundo da consciência criativa sem o elástico, capacete e apetrechos de bung jumpie. O narrador mastiga os escorpiões na sopa (Capítulo Black Out), lasca-nos um beijo francês, e nós sentimos hálito de Halls. Cecê, em A lua vem da Ásia, afrontou seus e nossos demônios e santos e pernilongos e aedes aegiptys, pregando-lhes um susto-xeque-mate. Comparo, se me permitem, Cecê a Marcel Duchamp. Cecê é o Marcel Duchamp das palavras. Ambos ilustres zombeteiros: um, de modo geral, em torno da condição humana; já o outro estica os elásticos conceitos de arte(fício): considerava um ralador de queijo ou uma meia socket [ready-mades] objetos dignos de um espaço no musée du Louvre, entretanto não se identificava com nenhuma escola artística, visual, pictórica. Cecê também dispensa tarjas pretas, pois sua arte expulsa a vergastas a codificação de barras, mas mantém o diálogo-arranha-céu, mesmo desconfiado e a longa distância, com conceitos e valores.

A lua vem da Ásia: livro que, além da maturada iconoclastia, possui muitos predicados, contrapondo-se à geração-confraria 90 e à geração (nota) 00. O narrador, no primeiro parágrafo, assassina seu professor de lógica (grande sacada), por motivo justo: Campos de Carvalho, assim como o schnauzer Nietzsche, draga o compromisso com a lógica (no sentido de não se encerrar no dependente apego a ela ao ativar o pensamento), de igual modo não milita na filosofia de janotice didática. Campos de Carvalho sim sabe executar o ofício de artesão do verbo, não poupando a inserção do sarcasmo e labirintos espelhados, nem de solitárias giratórias. Romance imprevisível, onde o narrador desbrava e aponta as lacunas de nossos ancestrais preconceitos, tapando-as com preconceitos reciclados dos quais relutamos em abrir mão. Recalca-se na missão-vulto de um pária, cujo câncer-mor surge quando se olha no espelho e vê a face do irmão gêmeo que sobrevive dentro dele. O narrador não sabe quem é nem onde está sequer qual o idioma surte efeito (positivo ou negativo) sobre os personagens. Cecê detém uma escrita metamórfica e imagética em constante confluência, resistente a traças, fogo e releituras, sem o prejuízo da pujança a qual deixou minha esposa desconfiada: costumo ler A lua vem da Ásia à noite, deitado, gargalhando a ponto de minha mulher inquirir se estou chapadão. Não, à reação ao efeito Campos não sobrevem o riso-gás-hilariante, mas um riso que, mesmo emudecido para os de fora, perpetua-se no agigantamento, por dentro. Campos de Carvalho leciona a didática de um voyeur que olha para o lado de dentro. Campos de Carvalho, seja em A lua vem da Ásia, seja em Púcaro Búlgaro, merece sim o título de filósofo do absurdo. Ombreando com as diatribes de humor cinzento, soube delegar licitude ao pensamento, à individualidade e ações imputáveis. Este sim não menoscabou o poder da linguagem, relegando-a à patente de soldado raso. Cecê tira do coldre uma automática movida a água e mata tudo-todos, inclusive o conceito-adoração de si próprio. Pra que sol se tenho a lua que vem da Ásia?

Obra: Livro do Desassossego. Autor: Fernando Pessoa. Avaliação: 13,7
13,515.II.1997. Apaguem os cigarros. Desliguem os celulares. Vou abrir as cortinas. 23.IX.1997. 02.I.1999. 03.VII.1999. 14.XII.2001. 22.IX.2001. 15.III.2003. 30.VII.2004. 1º.VIII.2004. 18.VI.2006. 07.I.2007. 21.III.2007. 19.V.2007. 29.VII.2007. 06.VIII.2008. 14.IV.2009. 35.V.2010. 12.XX.2009. 56.XIV.2012. Depois do livro, Pessoa se encaixa no catálogo das maiores invenções. Incorporou de esquizofrênicos a faunos e aliou-se a si próprio através da heteronímia. Sua flauta pastoril seduz Gaia. Só entende a dimensão antimônica do livro quem aproveita seus black outs para respirar a escuridão do autor. Os únicos momentos em que vemos com clareza nosso órgão respiratório ocorre durante os black outs. Pessoa: o mais alfabetizado em poesia lusófona.

Obra: Belvedere. Autor: Chacal. Avaliação: - 1,2
Essa ciranda-cirandinha carioca deixou a paciência até de minha filha de 6 anos carcomida, de tão nissinmiojizada, por consequinte, enjoativa. Ainda bem – acho – que os poemas dele só têm sotaque quando falados. A coisa que mais me agrada em Chacal é seu prenome. Um poeta mais de atitude do que de lavra poética; logo, mediano – se é que um poeta mediano fabrica poesia. Um cara que andou e esperou tanto na fila, sem nada absorver neste lapso, só pode ser um office boy, jamais um poeta. Pratica não a poesia enquanto oportunidade de explorar seu lado imagético, semântico, lingüistico, gramático e modular. Reduz a poesia a um mero exercício de oralidade, levando ao descaso seus demais componentes tão ou mais passíveis de aquilatação. Se canalizou todo seu potencial para a poesia oralizada, entendo o estado de coma de sua verve. “Chacal, desde o ranço mimeográfilo, evoluiu, eruditizou-se”, atestaria, caso quisesse consolá-lo. Há críticos e leitores pios no que aspei. Mas como pode evoluir o que dele veio à luz, morta? Num cadáver recém-nascido, a única evolução verificada reside no processo de putrefação. E o pior não é parir uma poesia defunta, mas constatar que muitos (grande maioria) filhos das gerações 90 e 00 são a reencarnação da chacalidade. O tíbio segmento “marginal” dele está para o estampido revolucionário de Mário de Andrade assim como o voodoo da Bruxa do 71 está para o rito negro de Aleister Crowley. O coiote tísico Ademir Assunção (deslumbrado com seu cedê Rebelião na Zona Fantasma, por sinal, incondizente com o título, por ser sobremaneira pacato, seja nas letras, seja no instrumental) pupilou Chacal; portanto, este declamando, transcende aquele, cantando. Hoje começo a engrenar no porquê de haver tanta gente autoproclamada poeta: a Síndrome de Calíope vitimou blogueiros não vacinados. Uma das coisas mais difíceis, desde a popularização da internet, é esbarrar com alguém que não carregue o crachá “poeta”. Ademais, com esse negócio de tirar poesia de tudo, acabamos por não vislumbrá-la em nada; vê-se poeticidade em tudo, menos na palavra, sua forma original. Chacal relegou o poeta ao status de menestrel performático. Meus contemporâneos, influenciados pelo autor de Belvedere, demonstram uma vaidade patológica ao se afirmarem poetas, esquecendo-se de se dedicar à construção disciplinada da poesia. Contentam-se com uma cirandinha desgraçada. Chacal só não é pior que Chico Alvim. Divergem no seguinte: Chacal usa um spray entupido e Chico Alvim uma Mont Blanc ressecada. Pro cu de Tutankamon! Chacal é menor que minha pica. Sua poética não pega nem na banguela. Prazer, Chacal, meu nome é Ricardo.

Obra: O escritor imaginário. Autor: Piemonte Velletri. Avaliação: 9,0
Rechaça a mentalidade de rebanho já na dedicatória. Escreve com uma suavidade desconcertante, mas não com a típica glicose responsável pelo ressecamento vaginal da escrita, obstaculizando a penetração do leitor. Neste pequeno livro, abordou todos os temas com mais sarcasmo que Voltaire, com mais profundidade que J. K. Chesterton, com mais erudição que Claude-Gaspard Bachet de Méziriac. Condenado à última pira inquisitorial protestante, morreu queimado de cabeça pra baixo. O livro (autobiográfico?) relata o achado do diário de um personagem que tentou se matar inúmeras vezes, pela primeira vez com apenas 11 anos de idade: nesta tentativa, infelizmente o cadarço arrebentou. O escritor imaginário, até a página 40, é de difícil ingestão, mas depois deslancha para uma narrativa fascinante, realista sem ser fotográfica. Há uma passagem em que o narrador foi surpreendido pelas autoridades, enquanto pincelava a seguinte tela: uma versão doentia da estórica crucifixão. Começou pintando o Cristo europeu tradicional, depois acrescentou à Paixão uma outra cruz, de ponta-cabeça, cuja base foi enfiada na uretra de Jesus, empurrada até sair pela goela. Dois Cristos crucificados em posições perfeitamente opostas. Um dentro doutro, um empalado pelo outro. Um regaço de livro! A esperança é a última a morrer (só porque não estava na lista de desafetos de Velletri).

20/07/2007

Esgoto escarlate

Faço saber que o congresso nacional não o sabe, mas decreto e sanciono a seguinte com respaldo nas prerrogativas e poderes maneiramente constituídos (...) a mim confiados

Artigo 2.007 – esta prescreve medidas anormativas para repressão ao fabrico, autorizado ou não, e ao comércio lícito de religiões, doutrinas, seitas, mesas redondas, rodas e adesivos (VETADO)

Por ora:

I – evito sim aderir a qualquer religião, pois desconheço alguma que não crucifica a liberdade intelectual

a) seja a curto, médio ou a longo prazo a aparição dos primeiros sintomas, a religião pode designar uma crucificação intelectual degenerativa, progressiva e irreversível

II – aderisse a uma doutrina religiosa, na certa eu seria uma amazônica fraude, porque segundo meu parco arrazoado, ser religioso significa assumir sua religiosidade com autenticidade, lealdade devocional e coerência policiante, e tal decisão, a rigor, incondicional, culmina na aceitação de todas as privações inerentes à adesão religiosa

III – minha bunda se esforçou, mas não consegui me acomodar aos bancos rústicos de pau jesuíta

IV – meus joelhos tentaram, mas não consegui me ajoelhar: os tapetes muçulmanos esfoliaram as rótulas, e os muçulmanos se ajoelham para meca e ofertam a bunda para o ar, mas (vai entender) apedrejam em praça pública a bicharada

V – empenhei-me em curvar a cabeça, mas fui expulso pelos ortodoxos por me negar a encostar minha fronte no muro das lamentações (injustamente, ora, pois assim evitava o desgaste da obra tombada dos grafiteiros locais)

a) recuei dois passos e persisti civicamente a abaixar a cabeça, contudo foi surgindo um hematoma no meio do meu peito, de tanto meu queixo pontudo tê-lo pressionado, isso sem citar a dor na nuca e a coceira causada pela barba piolhenta do essênio bem atrás de mim (o que por sinal não foi de todo ruim)

b) lamento, marcelo d2, mas só agora que decolei para o brasil, num airbus a-320 da tam, lembrei-me de ter esquecido teu baseado enfiado no muro das lamentações

VI – se deus vê tudo de seu não-lugar, para que chamá-lo milhozentas vezes e em que alcunha for, haja vista que qualquer um do povo se prontifica a socorrer o emergenciado, a seu alcance, sem ser chamado

VII – há quem afirme, com eloqüência aiatolakhomeínica, que o descrédito alusivo à necessidade da existência dum deus, suprassemprezelador, leva o homem a chafurdar na seguinte cilada: acreditar que ele [o homem-humano] proclame sua própria onipotência

VIII – se deus não faz pelo homem o que este pode executar sozinho, resta infirmar que deus nunca interveio ou intervirá em prol da vida humana (ou da própria vida), considerando a hipótese de o homem, sozinho, ter aprendido a matar e matado deus, tirando nota 10, inclusive

a) o homem é tão independente de deus, que o matou sem ser por este mesmo deus interrompido

IX – deus não ressuscitou; as religiões e afins sim

X – grande coisa um deus, dotado de todos aqueles atributos, ter multiplicado pães e peixes: o padeiro faz tal milagre; os peixes se multiplicam por conta própria, isso sem levar em conta o fato de o homem também se fazer multiplicado sem ser deus

XI – para que deus? basta a natureza se incumbir de desincumbi-lo

XII – e se bíblia-corão-torá fosse mesmo sagrado, inspirados por um deus cordato, deveria ter imunidade contra as deturpações, o machismo e a selvageria

a) se quem registrou tais textos foi um canal direto, e sem rachaduras, de um deus límpido, de onde e como escoa tanto esgoto escarlate?

XIII – norteei tanto o desvio de anjos e deuses, que tenho a sensação de voar tal quais

XIV – estar no interior duma mesquita ou sinagoga é mais perigoso que estar no meio do fogo cruzado entre israelenses e palestinos

XV – por hoje, assim como montesquieu reprovou a conduta de quem não aproveitava o conhecimento apreendido, colocando-o em prática, recuso-me a crer na existência dum deus que menospreza o benefício de suas infindáveis aptidões, virtudes eteceteretices

XVI – sustentar uma tese favorável à existência ou inexistência dum determinado deus soa tão imaturo e modorrento quanto dizer que ninguém nunca esteve ateu, mas (...)

XVII – a religião deforma a opinião e tortura o bom-senso assim como a farda modela o corpo de quem reza para o cacetete atender sua prece

XVIII –

Parágrafo único

11/07/2007

A síndrome de Nou

– Pai-ê: o senhor vai querer qual sanduba mesmo?
– Traga o maior, estou faminto. Não demora, senão ele esfria e eu esquento.
– Só vou me encontrar com uma pessoa especial e volto loguinho.
– Cuidado.

Rosaflor e o viúvo Nouneime, seu pai, mudaram-se pra lá sexta-feira passada. Não conheciam ainda nenhum morador daquele condomínio e, quem dera!, vice-versa. Rosa cotidianizou-se em facul-lar-net / net-lar-facul; Nou tonificava a preocupação em proteger a integridade daquela. Raramente saía dessa e do apê. Punia-se, vivendo dentro duma bolha de concreto, porque não conseguia diligenciar certos atos e escolhas de Rosa. Não se conformava que um dia ela adotaria o mundo e o chamaria de pai, não se conformava com o fato de que o pátrio poder não dispusesse do direito de coibi-la de experimentar a vida sexual. Nouneime flagelava-se. Dentro da bolha. Anos a fio.

Rosaflor avisou ao pai que naquela noite iria lhe apresentar seu príncipe encantado, Grosgolom, guri o qual namorava firme num site de relacionamento em Second Life – embora nunca o tivesse visto tridimensionalmente em pessoa. Pra dizer a verdade, Rosa nunca namorou sequer ficou com ninguém, em nenhuma outra circunstância. Nunca fora tocada por um macho diverso do pai. Sendo assim, tudo o que o cinqüentão do Nou mais temia ali chegou (justificadamente) à tona: ele portava a síndrome de himenolatria crônica cumulada com uma espécie de complexo de Electra subvertido*, mas ninguém o sabia, nem mesmo ele próprio, pois os sintomas se desincubaram pela primeira vez nas linhas a seguir.

Alarmado diante do risco de sua planta unigênita correr perigo de fato, Nouneime tropeçou nas vertigens e cambaleou até conseguir um abraço da parede. Encostou nela o braço direito horizontalizado, acolchoou os olhos mareados, e começou a assistir, na primeira fila, a exibição sucessiva de paranóias diversificadas (vivenciando as hipóteses, antecipava o sofrimento) e toquetoquetoqueteou se o tal namorado da filha não passava de um safado drogado (momento em que sua idade caiu para a casa dos 45); pensou se o tal amor da filha não fosse um daqueles tarados hábeis em predar usuárias de internet (daí sua face descolagenada e cabeça grisalha se ajustaram à de um homem de 37); visualizou um sujeito a trazer consigo uma caravana de deéssetês e contaminar a filha, além de engravidá-la e escapar das obrigações (sua idade despencava para 22); depois se agachou, subjugado, ao hipotetizar a própria filha teclando meses a fio o grelhinho em frente a uma webcam para um ogro suplicante, “um ogro, meu deus, tu-tu-tu-do menos um ogro” – conclui, com respaldo no nome tolkieniano do pretendente (daí uma estrutura atlética se desmoronava mais rápido que aquelas roupas senis pesadas, donde um bebê se desenrosca com dificuldade e sai engatinhando).

Hic et nunc, ouvia-se um meninóide de meio metro esgoelar um senhor buaaaá. O berro sirênico começou a incomodar – e preocupar sobremaneira – os moradores do andar e prédio inteiro, os quais chegaram ao alvitre de adotar as devidas providências, graças à iniciativa do morador do 666: um blogueiro insone carente de realidades inéditas.

22 horas na pinta. Rosaflor e Grosgolom nem se dão conta da viatura, da ambulância e da Van do Conselho Tutelar estacionados na porta do edifício. Entram, lesadamente apaixonados. Rosa estranha o modo como o porteiro a cumprimenta árido. Rosa e Gros entram-saem do elevador e seguem pelo corredor cujo apartamento se achava seguindo o murmurinho. A porta do apartamento se notava aberta de longe. Lá chegando, Rosa e Gros depararam-se com um monte de gente lá dentro. Uma vizinha-mãe aborda Rosa, sobre o capacho “Welcome”.

– Você mora aqui no 667, né, mocinha? Como pôde?... – ataca, abismada.
– Moro sim, que houve aqui?, algum ladrão entrou?, cadê meu pai, ca-ca...? – trêmula, questiona e se escora na mão de Gros, enquanto um gambé se aproxima do casal, carregando o bebê-alarme no colo.
– Quanta irresponsabilidade! A senhora saiu e deixou seu filho sozinho, pelado, cagado: em péssimas condições. Além do mais, veja só, ele não cala a boca um minuto, há horas berrando. Deve estar faminto. A senhora está presa em flagrante delito, por abandono de incapaz. Faça o favor de me acompanhar até a 12ª Delegacia Seccional...
– Meu filho??? Ma... deve ser um engano. Ou devo estar no apartamento errado – pensou ela. – Não, já sei: é uma pegadinha, né, ahn, fala aí? Vocês, hein! Aposto que foi idéia do...

Num dado instante o bebê se cala, de súbito, estica um dos bracinhos ricos de dobra e baba de contentamento quando alcança o chaveiro emborrachado do Shrek, brinde ganhado com a compra do maior sanduíche, da mão do genro Gros.
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*Grosso modo, o distúrbio só viria a se manifestar diante da garantia ou proximidade de desimenização da filha biológica. Mas, no seu caso, a doença haveria de progredir com pujança: tendo só Rosa de filha, vivendo só com Rosa, o zelo-ciúme-amor e paranóia de posse superavam os padrões normais, logo estimulariam facilmente uma certa glândula que – só – ele possuía, responsável por desencadear um processo de rejuvenescimento quase instantâneo, em todo o seu corpo, rejuvenescimento este impossível de se retardar.

30/03/2007

Introdução ao anarco-nazarianismo (ou dandismo ontológico)

Sr momomoto, o famoso japa capaz d engolir o próprio nariz, foi denunciado Revelaram, recentement, q era o irmão do sr momomoto quem stava fazendo toda essa engolição d nariz Heute die welt, morgens das sonnensystem!

A qualidad da pergunta decid a qualidad da resposta Q sou eu pra responder quem eu sou antes da tentativa sfacelant d raspar no significado d "ser"? Tsc tsc tsc Por favor, não insista Não ofereço derme-porta-de-brastemp pra aceitar suas tatoos-renas-imãs d santiago nazarian* Nenhum garçom me ensinou os macetes d como ser anfitrião nem a trazer idéias-patê e certezas-petisco conservadas em formolidade, na bandeja – e olha q nunca perdi nenhuma aula d autodidática (claro q faltei, mas o professor, corrompível, abonou as faltas) Guardo na despensa apenas uma peça d trinômio-binômio, a coleção incompleta dum casal d grifos sculpidos na micose e um link pro meu sovaco squerdo – o q tem íngua, segundo consta do § ٣º, inciso qiiiv, alínea غ, capítulo da orelha do livro sobre os fundamentos da anarquia-ontológica, hakim bey, 1ª reimpressão A página não pod ser exibida A página q você procura não stá disponível no momento Talvez o site da web steja passando por dificuldades d ordem técnica ou você precise ajustar as configurações do navegador (...) Servidor não encontrado ou erro de dns internet explorer

Sem rebuliço, quanto vale uma resposta se a pergunta nada alcança, ahn, ooo, psit? Admito: não tenho cacife pra formular resposta tridimensional Se o senhor-senhora quiser, consigo bancar tão bem um cara-de-pau-mandado quanto alguém fã da vida impositória d banners-currículos, prometo fabricar-me a partir do mapa textual isolado com asbestos-muppetsbaby Portanto não peça a meus narradores lealdad a uma alcunha Um nome não diz respeito ao sujeito, mas o sujeita a lambanças abstracionistas previstas na manchet Um nome não resume o processo: endossa a mutilação do hibridismo O q porventura so(o)u depend do grau d compromisso stabelecido na relação com quem suponho formular interesse pela hipótese A identidad não se abrevia no ato d quem fere nem no d quem é ferido, pois tudo q foi porra e agora é sangue, scorre, por mais pegajoso q seja o sujeito

(~a v (~b v (c ^ d))) ^ a ^ ~c ^ ~b Lemos & cruz - livraria e editora Hotel pousada dona beja - completa infra-strutura para eventos d pequeno e médio port Hotel tururu - sua melhor opção (...) standard, luxo, (...) no centro da cidad Reduzino - transporte, cargas e encomendas ltda Atendemos em todo território nacional Therma tour (__) emissivo (...) Negatória investigação paternidad Prazo segunda-feira Vumm Buzina Descascar chiclet 9:46 ...gunda-feira Sapato furado

Se o senhor-senhora aplaud, dentro do camarot, diant do episódio-quetechup pra assustar babá, sinto pesar em só dispor d tintura hemospérmica, atrás do palco, d campana Consigo ser arrogant, snob e carbônico, pois não sei como inibir atributos atávicos, assim como não sei conter o afã gozométrico d rebolar, em cócoras, sobre um moai Responda o senhor-senhora como procedo pra não ser grrr Compactuei com a verdad a qual não diz respeito a respostas Uma pergunta não diz respeito à chance d a ela reagir Quem quer obter resposta (pra tudo, inclusiv) adota um padrão d consentimento Sou quem enfia o grandot polinésio no cu e o asfixia por auto-sugestão Moloch me perdoe: prefiro um moai ranzinza enterrado na bunda a seus cornos perolados Sou a inflamação circunscrita, d procedência estafilocócica, ao redor dum universo sebáceo Sou quem beijou a mulher, engoliu seu diu, e começou a falar erquirrito Evito a sutileza quando abordado por semáforo Sou quem se limpa e só vê no papel cocô d mosquito Compactuei com o movimento aleatório statuído pelo dióxido d carbono Ali ele aí Vou seguir em frent atrás dele

(~b v (a ^ (a v c) ^ (a v d))) ^ ~c ^ ~b 9:51 Pff Escritório d contabilidad (__) Nevescontec - 30 anos - assessoria empresarial Contabil... Reunião amanhã Audiência jesp 2:30 Biii E aí, maluco? (...) Comprar pão Concurso Comprar apostila conhecimento específico Outro concurso ond devo enfiar “eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto Sua gratidão me confortou Partimos em silêncio” Nananina Stamos em agosto e querem metida a “mas alice, eu já disse q não sou mitômano!” Deputado aracely Desculpa travestida d nota d agradecimento sfarrapada Muita gent na rua Cidad limpa Pecê pifado Retorno interditado na avenida imbiara (?) Suor Calo no dedão do pé direito Sapato apertado

Sou mais um autodidata em matéria d instinto Perguntar q sou, questiono se prefere receber uma resposta a qual precisa ouvir ou se quer correr o risco d ouvir um pensamento contrário e desconfortável A humanidad condenada à evolução Até mesmo um deus se rend a darwin – na medida q abdica d suas aparições aos homens (dotados d alta taxa d melanina, bronzeiam fácil à luz) Até mesmo a um cara d bem como eu: q fui barman no carandiru, q morei em república-boca-de-fumo, q vendi pequi em feiras cambojanas, q fui assessor parlamentar exonerado desd q fiquei preso numa scotilha, q li alexandre soares silva, q pratico goécia pra toda criança índigo se scafeder do umbral, q vendi meu ectoplasma pra adubar a laranjeira-vapt d eisenheim

Quando juro lealdad ao q creio, corro o risco d sonhar com um saco plástico na cabeça e não acordar mais Quando juro lealdad ao q sonho, creio não ser possível dormir Quem não questiona por receio d não receber uma resposta favorável e confortant, ou, o q mais atemoriza, uma resposta nenhuma, stá a meio passo da coragem d organizar uma doutrina dependent do medo – a deusa da justiça, themis, tem seus olhos vendados não pra caracterizar sua imparcialidad, mas seu medo diant da conseqüência d seus próprios julgamentos e ainda mais dos homens q nela se inspiram p_1 ^ p_2 ^ ... ^ p_m A base do medo stá no encorajamento d stabelecer limites Nada provoca alívio num homem q se conhece Segunda-feira A ment humana stabelece para si própria limites tão elevados, q o seu medo, em não conseguindo transpô-los, acomoda-se no lado interno e se transforma, com o tempo em contato direto com o tédio e privação d liberdad, numa fera cada vez mais raivosa, pronta pra engolir o homem por dentro Audiência

Perto da lixeira destinada a orgânicos Jogo nela um cigarro sta casa da misericórdia d araxá - há 120 anos acolhendo a todos com carinho Tel.: (34) 3662-... Vumm Titãs na expo Pagar celular até terça (...) Dor na coluna Pouca gent na rua ua ua

Quando o homem se mata, ele nunca morre sozinho A mort prefere comer o bicho cru Um vident não assobia pro futuro do cliente na agiótica bola d cristal, mas numa garrafa dágua gaseificada com rótulo d cerveja crystal pilsen Quero, d páscoa, não um ovo-acne Guard bem: agrad moi com um moai Ai E um imã da betty boop pra pôr na porta da geladeira E um edredon da sagwa – a gatinha siamesa

Cadê a lixeira d plástico q stava aqui? Caraaalho Em um parágrafo derreteram ela Sua postagem foi publicada! Visualizar blog (numa nova janela) Quer mudar alguma coisa? Editar postagem Criar uma nova postagem O q é mais divertido do q uma caixa d giz d cera? Personalizar seu blog com layouts Tem certeza d q deseja excluir esta postagem? (__)

Meu texto é nosso desd q foi seu Yeah Até deus evolui Prova isso a redução gradient d suas aparições pros homens Moço-moça: compra uma rifa d mim, vai! Você pod ganhar um escritor d pelúcia Publicar Não foi possível concluir sua solicitação Forneça o código d erro e as informações adicionais a seguir bx-tgipquatrod
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Nazarian – forma pop. “naziarian”. Do alemão ‘nazi' (abrev. de “nationalsozialist”). Naz(i)-arian. ‘Naz’ = nazista + ‘arian’ (forma ingl. de ariano¹, do latim ‘arianu’). Nazariano² – ‘naz’ + ‘ariano’ [etimolog. pleonástico, tal qual o caso “adjunto” –‘ad’ (=junto) + ‘junto’ (=grudado)].


1 – Relativo à doutrina de Ários (280-336), de cuja cartilha constava que o jacaré existencialista tinha natureza intermediária entre o divino pop e o humano über. Entre os teóricos do pedigree reptiliano, diz respeito à superioridade dos conflitos existenciais do jacaré urbano.


2 – Emo³ membro do nazarianismo: face neo(n)fascista do afetado nazi-colaboracionista (revisionismo estilo Jô Soares?).


3 – Abrev. de emotional hardcore, hino-comportamento de quem imita o alligator lifestyle e/ou ejusdem furfuris.

23/03/2007

Mono e Poli

Depois de ouvir a última sílaba de seu patronímico, Monodáctilo avisou-a, com seu dedo-sequóia, não ir buscar o almoço de jeito nenhum; Polidactilia esfregava sua bucha caquética na marmita polida; Em torno de dez minutos pra encerrar a entrega da comida; A dona fornecedora morava longe dali pra se chegar a pé; Monodáctilo e Polidactilia não podiam adquirir um passe de teletransportador de moléculas porque nenhum Prêmio Nobel de física tinha inventado algo parecido; Se Leonardo da Vinci tivesse projetado um teletransportador de moléculas ontem Monodáctilo pegaria a marmita a tempo hoje; Monodáctilo repetiu pra Polidactilia não ir buscar o rango, enquanto petelecava o cigarro rumo dentro dum angusto buraco na parede; Polidactilia enxugava o Tupperware reservado pra salada; Polidactilia asseverou ser a última vez que buscaria o diacho da bóia; Monodáctilo colocou outra bituca de cigarro no orifício de costume; Polidactilia, impaciente, perguntou por que não colocava o cigarro no cinzeiro, mas antes de ela pronunciar a primeira sílaba da palavra cinzeiro, Monodáctilo já tinha introduzido outro resto de pito no solícito buraco; Polidactilia desistiu de pegar a comida; Tonitroou histérica à vizinhança que ia matar Monodáctilo, pois não era certo aturar quem há anos só enfiava cigarro na parede; Polidactilia resmungava que poria Monodáctilo dentro daquele furo se ele se atrevesse a pôr outro cigarro onde ela o queria bem dentro; Monodáctilo não deu confiança e continuou firme-forte-constante no rito que perdurava há um decênio; Polidactilia sabatinava Monodáctilo, pois queria saber como ele não tinha se ferrado ainda com tanto fumo; Em vez de respondê-la, Monodáctilo acendeu outro cilindro; Polidactilia, num embalo só, tomou cigarro aceso dentre dedos e maço dentro do bolso; Polidactilia enfiou cigarro com maço e tudo no buraco; Monodáctilo se afastou dali; Polidactilia bufava-enfiava com fúria os cigarros picados, quando então um reboco e logo a parede inteira deitou sobre ela; Desabou cigarro de tudo quanto é marca; Quando a poeira já estava relaxada, Monodáctilo agachou, pegou um guimba familiar e o acendeu; Então Monodáctilo começou a chorar condoído por ter conseguido ressuscitar o primeiro cigarro que tragou.

22/02/2007

Faltou Freud ou a ambulância

Se este uniforme verde-amarelo-branco lhe cai bem, imagina então o efeito duma farda da aeronáutica No capricho Bem passada Barra sob medida Sapato padrão engraxado Quepe Postura austera Nos trinques Ele destoa dos demais funcionários Faz sentido abastecer no posto onde trabalha Primeiro emprego Cof cof Como dizem mesmo na tv, provoca um frisson Cabelo penteado pra trás Barba ralinha Mãos pequenas Pernas arqueadas Ombros largos simetricamente dispostos Sem vícios Ingênuo Tímido Olheiras Cicatriz no antebraço Rodelas de suor nas axilas Lisinho por inteiro, sem tatuagens esverdeadas que sugerem o aspecto de sujeira penitenciária e sem bizarrices corporais em voga Um homem pra quem pretende constituir a família cof cof cof ideal, pra se espremer os cravos das costas, cujo cecê pós-trabalho só um homem oferece O pai que sabe corrigir o filho a assistir um programa inadequado à sua faixa etária Santo deus Como ele cresceeeu Claro que seria loucura contar tudo a ele Ele me observa quando não posso vê-lo e não pode me ver quando o observo detrás da bomba de diesel Tem vergonha de mim ainda Podia cof ficar hoooras olhando pra cof cof ele, hoooras pensando ele Podia fazer coisas sem pensar com cof cof cof cof of of rrrr ele Bobinho no ponto pra deixar uma mulher independente manipulá-lo Desperdício um homem deste ralando aqui Dezenove anos Segundo grau incompleto Perspectiva nenhuma de crescimento no emprego Com um homem deste eu toparia golden shower, swing, ménage-à-trois com minha filha, inclusive o escambau Um homem deste personifica a própria fantasia, é o pilar central da realidade Por um homem deste eu teria largado a bebida aos vinte e poucos anos, cof embora ainda assim continuasse em débito com a lucidez cof Ele vem vindo Não posso com tanto Tem o queeeixo do paaai Pênis tamanho não muito grande-grosso Cabe certinho em mim Hmm ‘Ssa senhora, que boca Só o fato de imaginar sua fertilidade atrasa a menstruação Se eu não estivesse tão cansada, colocaria as cartas na mesa Estou muito cof of of a fim de dar pra ele Ah se o pego de jeito Vai provar um chá de buça com chave de pernas Aprender o beabá Pensar que já o peguei no colo Se não fosse essa of doença Vai cof ver só Suar todinha montada nele, até nosso cheiro grudar no quarto Mooorro cof of of de tesão por ele cofco fco f co fc of rrr

O frentista abaçanado chega Ela usa óculos escuros

– Prontinho Aqui a chave Vai fazer notinha, né Oi – ele a sacode de leve pelo ombro, ela rrr rrr – Tudo bem c’a senhora, mãe Mãe-e

20/02/2007

Charles Bronson

A quem é do tempo do divã


Dane-se Mereço uma cruz de malta no peito Acabo de acertar o gato Bem na cabeça Ele nem se contorce de agonia Grudo no muro o bicho que mata, desumanamente, dezenas de pardais e ratos Ele não se apieda de calangos nem de baratas, de grilos nem de formigas Tanto faz Caça e mata o que vê pela frente Até ração canina o animal ataca Jogo nele uma baita pedra mais concreta que o próprio fato Bate e não quica Todo mundo da rua aqui reunido, encantado com o regaço da pedrada O melaço imprime-se na pedra de tal maneira, que forma uma pintura rupestre Nada vai remover a mancha Quando seca, parece um achado arqueológico paleolítico A galera pensando alto, segura o malvado contentamento nos lábios quando o dono do gato chega O choramingão desmancha a roda

Toco a campainha na casa do guri do gato Sua simpática mãe atende e explica ele está lá no quarto ouvindo som, bate lá Sigo e vejo um expressivo pôster duma banda de metal afixado no lado de fora da porta Os cinco ferozes guerreiros medievais posando de cueca, não bastasse os cabelos compridos desgrenhados estilo franjinha playmobil Aberta a porta, dou de cara com um pôster do herói milionário da boca pelada Ele veste pesada cueca preta sobre calça de aeróbica cinza, deixando saliente o volume do heroísmo Trouxe seus joysticks, toma aí, obrigadão e... Não há clima pra eu estar ali muito menos para ele querer que eu permaneça Quando penso virar as costas, escorre o gelado Sua mãe me quebra um ovo na cabeça e me belisca o braço como se girando a chave na ignição Engulo susto-gema-clara e saio cabisbaixo O solo de guitarra abafa o caso

O crânio tem o mesmo formato da pedra que a amassa Estrago o bichano, uma lição pra valer Morte instantânea Chega à minha cabeça a idéia de fazer um paté daquilo Nem o sangue se mexe, embora o pessoal saiba, no íntimo, de seu implacável dom de regeneração E não é que o fedaputa reage e recomeça? Agora morro eu, de inveja do animal Ele tem uma formidável experiência pós-morte guardada Consegue funcionar, apesar de cambeta e com o olho estufado, resultado provável duma gambiarra sobrenatural Vai precisar de um zoofisioterapeuta competente Seu dono o pega no colo, sem se preocupar com o melaço na camiseta Afastam-se os dois Desmantelam o decepcionado e atônito círculo O semigato ronrona vingança, traduzida nas breves palavras proferidas pelo bocó do dono

A pedra, alma-gêmea, atinge sua cachola, encaixa-se bem nela Encontra enfim sua cara-metade Aquela cabeça felina é concebida somente praquela pedra, só pode Aquilo entra na cabeça do bicho, mas não na cabeça do dono O garoto não crê no estado de seu xodó, apesar de colecionar discos cujas capas-encartes tematizam cenas-tripas de dar gosto, um luxo só Nada vai consolá-lo da perda do transmissor de toxoplasmose de estimação Um quarentão, se ajustada a sua idade ao ritmo humano O bichano deixa ali a fauna para representar a flora, ou seja, seu crânio parece uma gorda goiaba prensada, papinha pronta para o consumo infantil Falta a colher para saborear a polpa da fruta A rua inteira a par da situação Justiça seja feita Ele merece a sanção máxima Charles bronson não erra Mata canários belgas e um curió, de fora da gaiola Mija no jornal de meu cachorro quarta-feira Desfia a paciência na mesma data

Dou-lhe um tapa nas costas O empurrão estabanado quase o joga de testa contra a parede chapiscada A molecada, de praxe, pronta pra aplicar o trote Ele tenta escapar, mas lhe passo uma rasteira Cata cavaca por uns cinco metros Daí o pego pela gola e seguro firme, enquanto despejam farinha, pó de café, catchup, mijo e ovo choco Se o pai dele pudesse, com certeza lhe daria um abraço, mesmo nestas circunstâncias Derreteria-se de orgulho, pois além de completar dez anos, seu único filho obtém aprovação na mais difícil escola da região, sem nenhum vermelho O mais homogêneo boletim da terceira série Ele chega em casa ic lambrecado e ic ic soluçando Sua mãe pergunta o que houve O menino só consegue explicar quando ela lhe estende um filhote de gato

13/02/2007

Ovelhices

Olha só O arco-íris parece exercer, empolgado, a incumbência de incrementar ainda mais o saturado mercado de superstições, dada a sua facilidade de estampar um deus celícola na umidade aérea Sabe, ele possibilita, com sua brevidade visual, a contradição de um deus mortal Uma divindade morre esmagada pela sombra de ruína Não resiste à piada diluvial O arco-íris é um deus-leque infernizado pela instantaneidade a cores Mas basta a distração do cataclismo que um sussurro-coluna remanesce O papirólogo chega e recebe do arqueólogo a charada escavada Competentes e abençoados pela graduação científica quitada a longo prazo pelo papai, decifram a narrativa-achado em minúcias Dissecam a coluna Os dois trabalham na velocidade de um grupo Reconstituem toda a hipótese de trono Ressuscitam um cisco e o coroam De um cisco pinçam um panteão

Um pigmento de história-casebre permite ilustrar uma gigantesca ruína palaciana Em matéria de engenharia teológica, somente a ruína não cerra os olhos A posteridade que é o milagre prometido a múmias, não a imortalidade A técnica de mumificação vivifica a posteridade A ruína orgânica situa-se num paraíso impermeável, além do alcance da decomposição A posteridade é o exosqueleto de um passado órfão Quando a posteridade teima em alimentar um cadáver, engorda um novo deus Esse deus é gula provocada a partir do instinto de abandono O homem extrapola a própria natureza, projeta-se no excesso, porque não suporta a idéia de existir um deus tão limitado que duvida da existência humana O futuro vai comparecer, olha ele bem ali, engatinhando e esbarrando em tudo, direto da velhice

Não o homem O macho-fêmea representa o centro, a medida de todas as coisas, mas são todas as coisas miscíveis? Fossem-no, uma escala binária, um compasso maniqueísta não poderia medi-las, assim Um par não se complementa conforme o usual As coisas existentes subdividem-se, passivelmente, em mais de duas frações Equivocou-se quem argumentou ser o homem o molde matricial de todas as coisas O senso comum utiliza a medida-casal

A humanidade centraliza valores precisamente binários, meu chapa Prioriza a doisificação Outro deslize Uma medida binária não pode medir, pois simplifica, imprudente e dolosamente, a vastidão de variáveis asseguradas pela infinidade que descentraliza até mesmo a noção de base Irresponsabilidade doisificar Nem um ser humano (unidade) sequer dois deles (binariedade) são matrizes das coisas Não há uma mera medida (antropomorfização) ou duas (heterossexualização) e sim três quatro dez mil medidas disponíveis para as coisas dispostas Há duas cinco quinhentas medidas das coisas; coisas das medidas; coisas das coisas; medidas das medidas

Não pode haver detrás de toda a trajetória-púlpito do judaico-cristianismo um deus diverso de uma mente negligente e conivente e por isso malandra Difícil apurar se sou tolo por me considerar consciencioso quando invoco alguém ou um boçal justo por eu não ser esse mesmo ser invocado Uma grande certeza generalizada é a própria ignorância que me conduz a tão distante para tão pouco

O principal problema religioso está no fato de delegar atributos funcionais estrita e necessariamente humanos a deus, por exemplo, exigir dele o reconhecimento do semelhante Identificar-se, conviver com o semelhante

Não há uma verdade absoluta, há, aqui? Havendo-a, esta seria uma unidade de convencimento genérico Diante do advento da fauna neopentecostal, doutrinas e templos de garagem simpáticos, resta-me conformar que tenho, no máximo permitido pelo otimismo, um enorme rol de verdades meramente hipotéticas e dependentes do contexto originário Se houvesse uma verdade passível de total e eterna veneração, por que ela, esta mesma verdade, preocupa-se em prolongar a exibição de tantas facetas, e não expressões faciais impressas num mesmo rosto? Se há uma fórmula infalível de conclusão, quem ou o que esclarecer-me-ia a necessidade progressiva de perfilar tantas versões ambivalentes todavia em constante discrepância? Enquanto as explicações se confrontam, excluem-se Por causa da engenhosa incoerência onírica se complementam O termo absoluto não admite variações, pois se varia diminui, se diminui distancia-se de onde está o que é A natureza absoluta de uma coisa, quando sujeitada à variação, sofre uma agressão depreciativa O absoluto encerra-se em si, em torno do próprio eixo

O que pode ser pior Assédio político ou religioso? Afinal, subsiste alguma diferença que não seja sutil? Um nacional interferir nas questões internas de um estado estrangeiro soa tão invasivo quanto a ovelha mecânica, despersonalizada, de portemporta, determinada a inculcar sua macia auto-limitação em quem a recebe A ovelha não tem coragem de enfrentar o lobo, porque aprendeu com desvelo a temer a figura de seu pastor A ovelha deitada ao lado do leão sai ferida, pois antes agride a ordem natural ao exigir mansidão da fera A ovelha sofre agressão do leão porque seu pastor garante o contrário O pastor não perturba a fera quieta: usa seu rebanho e observa o abate na sombra distante A fera é quem manda no rebanho, não quem o ataca O leão só ataca o rebanho porque sabe que por trás dele esconde-se a verdadeira fera O leão ataca a ovelha porque sente nela o cheiro de outro leão A diferença essencial entre a ovelha e o leão é que a ovelha não conhece a fera e a fera conhece a ovelha O rei da natureza tem o instinto predatório, a fofa ovelha o de ser predada A vilania parte de quem faz questão do abate e sobrevive para acusar quem não pode recusá-lo

O devoto, ao se dedicar com integral fervor à atividade de vender o manual prático de libertação, abre margem à invenção de mais um deus chancelado pelo pastor O cristianismo deixou de ser classificado como expoente do monoteísmo, pois tem o vício de clonar um mesmo deus na medida que protesta uma mesma fé O cristianismo edificou um panteão lotado por variações de um mesmo deus matricial

O que se aduba com merda de ovelha apodrece do mesmo jeito

Escuta Se, debaixo da bigorna ditatorial instaurada em seu território, e escorado numa deliberação de responsabilidade social, proíbem livremente a liberdade e autonomia de imprensa, a religião, sob a figura de seu exegeta, esmaga através da autocensura ao incutir a infalível punição, sempre iminente ao inocente, de quem contestar suas cláusulas contratuais

Ovelhice Todos querem compartilhar a verdade com sua comunidade, mas apenas oferecem códigos e sanções hipotéticas pré-fabricadas na oficina improvisada dentro da própria garagem – com a enferrujada parafernália de eficácia duvidosa emprestada pelo vizinho A religião, bem antes de exibir sua fachada industrial, com direito a letreiros lasveguianos e logomarcas robustas, colecionava fórmulas de origem caseira, muitas vezes descobertas ao acaso e sem nenhuma utilidade elementar A religião não agrega mais valor a deus que os instintos A tentativa religiosa não consegue condensar caminhos para transpor uma crise se ela própria experimenta uma crise maior Logo, a religião peca por ser provisória – e por não ter consciência disso Ela não consegue acompanhar o ritmo das crises as quais não cabe a ela prescindir Quando olho para o visor do relógio, raramente ele marca um horário redondo Assim uma crença se apresenta e se afasta de mim Doutrinas cobram caro pela confortável viagem, contudo não levam o passeante para além do pedágio O paraíso é aí Carregado de maçãs de plástico

Olha só

O homem tem o dom de atrapalhar o descanso do que não existe

31/01/2007

Banquete natalino ao deus das moscas

El mata moscas - Santiago Paulós (http://www.santiagopaulos.com/)

Ceia comigo. Como de costume, hei de ofertar-te carinho e apreço se aceitares o idioma arcano. Brinda comigo a natividade do messias ao avesso, brinda? Deita-te comigo sobre a estria clorótica do mofo edênico. Sim. Prometo-te fidelidade incondicional à tosse soberana, ao tufo, à cólera, à deformidade sifilítica. Servir-te-ei o manjar da lava bruta. Compartilha a sombra cristalizada. Ceia. Trisca teu cálice jateado em meu cálice, fartos do sangue venoso. Empapuça-te com a pústula moça. Aceita um gesto incrustado no eczema. Beija-me a hemorróida aflita pela saliva iniciática. Ascenda, comigo, do estrume – esse umbigo! Conheça a viga mestra da masmorra indelével, intacta. Ceia. Esfrega o antro em teu céu da boca – agora, no meu. Coça o prepúcio com a ferrugem da prataria romana. Contempla o soluço afinado a ferro, brasa e lâmina. Regurgita a casca da maçã na raiz da culpa genealógica. Escalda o cordeiro recalcitrante a buscar asilo. Isso. Embriaga-te com a novidade dos berros. Retira da mesa o fermento do pão vicioso. Desmata a parreira. Semeia a macieira. Coça a comichão escrotal com um ramo. Beija-me a hemorróida, o ânus latejante a hibernar sob o formol. Sê entusiasta da disciplina a entediar o espectro. Oferta-me: introduza tua excreção em meu ânus amigo. Sim. Venha, estrume adventício, auréola do ardor. Engendra a vaidade-filha unigênita do método escuso. Sobreponha a rusga no pedestal. Penetra-me com a gazua da castidade. Ceia comigo. Fela-me de poro a poro. Lustra a culinária com a viscosidade virginal. Abata a família. Faça-me o sal sobre a chaga hereditária. Ceia com o arauto da gangrena híbrida, porém fauvista no cheiro. Urina o bálsamo. Oferto-te fidelidade incondicional à pestilência, às ulcerações. Prometo-te carinho e apreço caso entoe comigo o idioma ancestral. Coça o prepúcio. Esfrega em meu ânus os restos orgânicos. Coloca os papiros dentro das tripas. Hei de relatar teus feitos bravios às camadas inferiores. Deixa os piolhos verdes fugirem vivos da macieira. Deixa o visco lubrificar o que me empala pelos poros. Fela o coagulado. Permita a calosidade detenta tocar-te os lábios – com os mesmos dedos definhados que há pouco estrangularam a autoridade. Mas antes, aceita o filete desta brasa modesta. Sacia comigo a tara do menino anti-esperma. Sirva-te. Flerta com a nervura do banquete morno. Rumina o dentro do prato de estrebaria. Mastiga o choro e a intenção de colo. Venda as amêndoas com a Faixa de Gaza. Rouba e arremessa os mil verbos em direção à estrela de Davi, assim invocando o eclipse. Ceia. Tu mereces, apesar de não sabotares a arquitetura da manjedoura conforme designado – lembra-te, filisteu? Unta os pequenos restos com esperma de suíno. Dê-o de comer ao homem. Esgana os Reis Magos. Enforca o arcanjo das asas com penas de pomba – usa o frágil umbigo do pequenino. Comigo. Sê obediente. Pega. Trespassa o objeto no outro objeto: embebido na mirra do amarelo Gaspar, forjado com o ouro do branco Belchior, na vulva daquela. Mas antes que este artefato metálico musique o orgasmo pleno, empurre-o até à goela uterina. Fatia o fruto enjeitado pelo ascendente adotivo. Coroa o hímen com espinhos. Esmaga a data santa que ela gera. Ateia, depois, o fogo no incenso do negro Baltazar, pois o deus das moscas chegou – vejas.

25/01/2007

Okay

– Sim?
–
– Sim?
–
– Sim?
– ~:^(

sei lá do quê!) A meio metro, não custava nada ela mesma pegar a caneca sobre a mesa e colocá-la na pia. Mas não. A minha preguiça enseja outro espetáculo-testasterona, um novo pretexto para ela empregar sua habilidade correcional sobre machos desmazelados, impreterivelmente. “Se não sou eu, essa casa não funciona. Duvido que você consiga viver sozinho. Essas cuecas. Não consegue pôr nada no lugar certo. Todos iguais. Homens são todos iguais. Fazem nada.” A minha dificuldade para organizar objetos a guarnecer a residência está para a facilidade dela em desorganizar a placidez-trigo da mesa matinal. Dia outro, porque enxuguei os pés num tapete recém-comprado, agora sou “um panaca porco”, inútil, abaixo da média. Porque não abri a janela, quando ventaria direto na nossa descendente enrolada na toalha duma Menina Superpoderosa; porque coloquei o saquinho de lixo na lixeira, virgem, apoiando-a sobre a pia desinfetada. “Vai sujar, burro. Tudo pra cima de mim. Fecha a geladeira direito, assim, ó.” O vasilhame caiu no chão. Arroz e veneno distribuídos sobre o piso, cuja qualidade havia sido insultada logo ontem. “Merda, (...), geladeira (...) não fecha.” Mas nada se compara ao evento da caneca. Nada. 50 centímetros da pia. Ela preferiu desgastar mais aquela relação a pôr a caneca na pia, calada, mansa. Mas não. Entornava o leite. Fazia questão. Coalhava o restante de conjugalidade. Convalidava a iguaria vencida. No café da manhã-almoço-jantar. Nutria-se daquele colesterol todo. O arroz e o feijão não se misturavam naquela panela. Requentava. Sem o auspício do Dako. O óleo espirrava da frigideira. Pano de fundo o barulho. Com o pano de chão tapei os ouvidos. {(então)}

O chulo esmurrou a porta, cessando a raspagem do púbis {uma tiete do doutor Bayard Fischer ouviu, doutro cirurgião, que assim um homem poderia fraudar a estatura peniana: menos pêlos importaria mais espaço para a piroca espernear, logo esta aparentar-se-ia maior à platéia mictoriana. Até faria um ensaio fotográfico com o bichinho. Um curta. De 20 segundos. Sobre um protagonista de 10 centímetros. (ele, de tão curto, mesmo com o benefício da ilusão, não penetraria nem mesmo canais youtubeanos). Esguicharia à vontade – ao lado dos que não precisam depilar a zona fálica para ela parecer satisfatória. Pingado o colírio na miopia de um tabu, lucra-se com o brio diurético. No palco, o frontman, pela presença de palco, vale. Pêlos deixam a mola peniana mais retrátil}. Com o susto, quase abati minha verruga erétil. “Eu vim buscar a geladeira” – em arrastado tom esponsal. A casa ficou toda peladona. Tinindo pedaço de lampejo dezembrino. Até minha garrafinha do IELF ela carregou. Ainda tenho uma noitada c’aquela coroa enxuta. Vou esfregar minha verruga em sua hipertrofia vaginolabial. Uma filmadora cairia bem para registrar o desastre. E o povo alarmado com emissão de gases-estufa de poros euro-estadunidenses, com enforcamento de Saddam. Vou ligar pra ela. Marquei às 11? 8845-3773? Vou mostrá-la a espessura de minha neodiurese.

Nenhum talher. Okay³. Algumas peças de roupa dependuradas em araras metálicas. Um chaveiro com a fotografia da descendente. Entressorriso mofado: conseqüência-síntese da textura janeireira. Debaixo do gibi, um postal da outra que me telefona “Oi. Já são...”, e avisa, às 17:32, que não acessou a rede porque, às 14:10, havia recebido um anel de brilhantes do marido, e chorava, pois se sentia uma megera por traí-lo (comigo, um serviçal da “versão jurídica do SUS”. Este termo, aspado, ela quem o cunhou. Não vou devolvê-lo não. Não vou atribuir nenhum crédito a ela não. {(então)} Basta a outra ter me deixado com apenas uma garrafinha d’água. Ela gozava com o marido somente quando pensava estar me chupando. É. Trair alguém não significa conduzir outro alguém para a cama daquele, mas sim levar um alguém para a mesma cabeça que outrora se enchia com a figura do esposo, e agora mentaliza cenas-cetim com aqueloutro. Na verdade a infidelidade mental restabelece o enlace formal. Graças. Desentedia. Decora o quarto. Incensa-o. Prepara uma carne para outra carne além da qual já esteja acostumada a simular sovaqueiras. Graças. Em decorrência do medo ocidental entranhado no DNA, todos passam a chupar a genitália inflável da intraconjugalidade, e aposentam a liberdade atípica da criatividade e necessidade sexuais. Pior que trair é mentir; mentira significa traição quando se trai a si próprio. O problema maior não é o tamanho do tabu ou da pica, contudo permitir que o plano objetivo seja maior que o subjetivo. A bigamia institucional representa o muro de Berlim sexual. O orgasmo binário não pode perpetuar nenhuma espécie de manifestação artística. Traição não se limita a vilanias da carne. Traição __________________________, pois ___________________ ou __________________, hein?). Boba. Transa com um na cama e com outro na cachola. Triângulo amoroso entre dois que nunca se roçaram. ________________ (...) ____________________.

[(...), ela garantiu-se, dali adiante, {(então)} ir amar-me sob o véu iriante da amizade, aha. Quem gosta de amizade abusa do simbolismo-bússola em torno do arco-íris. Quem gosta de arco-íris vasculha e escavuca, na companhia brutal de bebês tardios, o fundo do pote a fim de localizar a raiz das cores, mas só encontra o calo da própria mão, lá dentro, e mãos que pegam outras e nunca um quinhão de ouro corrente. O arco sinaliza uma paz prismática tão breve quanto a melhor cor da infância, (...), (...), (...,...,...)] Sondo esgotos e deixo-me singrar pela umidade oculta que baforeja baratas. Coleciono insetos. Colo-os na cadeia-alimentar pós-industrial do esgoto rural. Não os vendo, substituo, dou. São eles que me acompanham. A biruta da barata me avisa quando o indesejado chega, sorrateiro, estratégico, pisando sobre ovos de calango. A lagartixa me professou o princípio da imunidade caudal instintiva: arte bélica. o arco-íris iça bandeirolas porém não toca a superfície. Não se besunta de chão. Exalta a metáfora-processo metamórfica da borboleta, como se uma pedra não pudesse voar ou mudar de roupa – ou trajetória de vôo ou de pouso ou próximo bombardeio. {(então)} Tudo muda, menos a sina do camaleão. “Vai ser bastante difícil mudar os sentimentos da noite para o dia” – choramingou. “Você pode facilmente mudar o dia e a noite” – devolvi. Arco-íris é a boca-bicha de um emoticon para emocore. O Bifrost apresenta a única função viril para arco-íris: ponte que viabiliza transitar entre Asgard (mundo dos deuses) e Midgard (mundo dos mortais).

A genitora do sexo oposto embarca amanhã para a capital nacional. Daqui a 2 vezes 24 horas completarei 29 anos de existência extra-uterina. “O que você quer de presente, meu filho?”. “Ah, mãe: um presente pra sua neta está de bom grado”.

O coroa do triângulo tentou teclar comigo hoje. Senti-me no pontal da pirâmide, a hipotenusa do escaleno.
– “SSstou bêb-adan-ão. Meu marido viajou a trabalho. Estou sozinha. Tchau. Vou voltar para o prédio e continuar a beber com uns amigos.
– Okay. Vá. Cuide-se. Até...
– Que porra de amigo você é: me induz a beber.
– Então decida-se, uai: veio pra ficar ou não?
– Não me venha com subjetividade (e resmungava algo sobre o tamanho do lugar e o desconforto causado pelos ombros de um argentino).
– Objetividade nem subjetividade: o que poderíamos assuntar?, vamos papear {(então)} sobre o fato gerador do crédito tributário?, que tal a potencialidade criminógena de idosos neuróticos de guerra?, que você acha do Itaú Personalité-BankHome-BankLine?
– Ssstou bebendo por TUA CULPA!
– _______________,________________:___________________!
– _______. __________. ______,__________,_________? ____.

Pediu-me para trancar o portão: tarefa exclusivamente viril, segundo ela. Afazer de macho. “Vai lá. Isso é serviço de homem. Vai não, merda?”. Afazer de homem corresponde àquele serviço inexeqüível para a mulher. Por acaso existe alguma tarefa masculina inadequada para uma mulher – levando-se em conta que, hoje em dia, uma mulher pode implantar pinto-saco no lugar da xota?

É. Com tanta gente para o povo truncar. Com tanta fruta para a gente provar. Tanta merda para pisar. Tanta palavra para a gente se calar. Tanta hipótese para descentralizar. Tanta punheta para manusear. Tanto tanto. {(então)} Elas bem poderiam deixar-me em paz com minha guerra.

– Alô. Quié, branquela? Sei. Sim. Acessar? Não. Estou depilando o púbis. Ah. Sou culpado por ser vítima, okay? Chutei aquele mendigo sim, ora. O cara me estende uma caneca, queria o quê?, tenho trauma de caneca.
– _____ ! ________________________________. ________________. ______________,_____________________? __________? __________?
– _______,__________ (...) ______________.
–
–
–

22/11/2006

Fenomenologia do usuário de rotina


Tropeço numa lata. Lâmpada. Roço-a. Eis que exsurgem três gênios-gêmeos de Sião. Sendo assim, só pude desejar uma vez. E das ferragens-âmago solicito uma Hering branca básica. Acordo sob a reverberação de vinte cinco minutos para chegar ao escritório.

– Lambão: penteia o cabelo. Barbeia o lanugo. Tira essa camiseta amarrotada. Todos vão perceber que você dorme com ela. Vai assim: com essa calça jeans velha e essa sandália de vovô ridícula? Vai trabalhar com a bunda suja assim? Veja se isso é postura-traje de doutor-pai-de-família? Seus colegas andam im-pe-cá-veis: engravatados, perfumados e com bóton da OAB. Desleixo demais da conta. Os clientes se vestem melhor que você. Acha bonito ser minimalista. Acorda! Pegando frango ainda vai, mas manchada na bunda?
– Suja, muito? Sujei na igreja.
– Lá vem: larga de perseguir a igreja!
– Digo a verdade, pacóvia: fui à missa de formatura da menina. Devo ter manchado a bunda no banco em que me sentei, presunçosa de campana, dona Caracucarador, noveleira sonoréxica: estressada demais, você! E começa e não desconfia e não pára nada. Pega no pé não, pega no pau, glamour girl de quermesse! Às favas! Agora você vai me ouvir vai me ouvir ah se vai: aquele almanaque de jacus lacrimejando não sensibiliza deus nenhum não. Ouça. O pranto só tem a função de lubrificar as engrenagens do inferno. Uma vida religiosa constitui uma possível via existencial, jamais sucesso metafísico. Aliás, a gravata decapitou o sucesso. O terno asfixiou a naftalina. E nada contra música sertaneja, muito menos nada contra contrapor-me a ela. Não consigo me lembrar se maconha provoca lacuna mnemônica. Não há nada mais democraticamente diluído que as vias de acesso a um mesmo tédio dominical. Prefiro arte geniosa a genial. Aforismo despojado tem a espontaneidade da blasfêmia legítima. Por mais longeva que seja a vida útil da obra visionária, ela sempre estará prosseguida de um ponto final. A maior proeza humana é conseguir se emudecer voluntariamente. O que atesta – ouça – a qualidade vaginal é justamente seu perfume peniano. O que entra por vias audiovisuais dói mais que o que entra por vias anais. O que jamais queda em disfunção é o tesão pela elegância patológica inerente à didática da compaixão proselitista. Não é o sábio que tem a cabeça sob o sol e o sapato grã-fino na sombra, mas sim quem tem a cabeça na sombra e o par de chinelos (ou sandálias) sob o sol: descalço, nem um deus. Olha, e sobre marica, saiba: o que faz a cabeça não é a maconha, e sim o Durepox. O melhor da mulher é justamente onde sai o pior. Pessoas não são interessantes: oferecem coisas pelas quais nos interessamos. Nenhuma abstração saldou minhas dívidas, nenhuma filosofia vale a ressaca pós-Balalayka genérica. Ninguém pode pagar por uma dívida que a humanidade contraiu. Kardec não mencionou: espíritos reencarnam porque parcelam divindades. Verdade existente bem pode ser a existência de representação. Por favor, dona, não me convide para apreciar verdades estacionárias professadas em saliva estanque. De um lado, o antólogo-paçoca, porta-voz da geração aldogão-doce, recrutando quem se vale de prelúdio, prólogo, prefácio, sumário, vinheta, interlúdio, poslúdio, epílogo, posfácio, apêndice, glossário, nota de rodapé, citação e dedicatória bilíngüe, ufa, todos esses issos destinados a um único haicai, inspirado por uma divindade-glicose analfabeta. Do outro, a imprensa-valsa convidando para o baile de debutante da Lei 11.343/2006, anacrônica desde o manifesto beatnik. Não. Desde o clube dos haxixeiros parisienses inaugurado por Baudelaire. Nietzsche e eu temos uma ressaca em comum, embora ele se valha da metáfora da dinamite, e eu me identifique com a da esponja. Compre um litro de vinho Chapinha e ganhe dois litros-diarréia. O tema proposto configura fim de discurso. Ilustrar uma divindade através duma figura antropomórfica equivale a representar a serpente do Éden a uma tripa abádica, empapuçada com o corpo-passa. Com essa estória de liberum arbitrium deus ensaboou suas mãos. Por que deus (isso, com “D” minúsculo) é um anfitrião a anunciar uma farra dentro do céu inteiro? Todos sabem que basta um barraco para acomodar seus (com "S" acanhado) felizardos: menos ele, logo o detentor da onisciência! A morte repara o erro vivente? Não. Daí exsurge (ressuscitaram a palavra) um jesusinho (homenagem a Caio Fernando Abreu mesmo), como se tudo tivesse sido resolvido. Ora. Promessa de recuperação atesta protelação. Depois da merda irreversível feita, não interessa o tamanho do bode expiado. Uma única gaiola comporta toda a hoste celestial. Ora. Pra que idéias-rubi se tenho despautérios-criptonita? Ninguém apanhou dalguém sem receber uma surra do medo antes. Melhor um morcego na mão que dois batmen espetados na churrasqueira de Ozzy Osbourne. Um remédio faixa preta nocauteou a reencarnação de Wong Fei-Hong. Literatos dissecam um algodão-doce no intento de se conhecerem melhor. Não logram êxito. A inspiração carece de formol, senão apodrece. Em vez de se atentarem às blasfêmias que fazem jus à fundamentação histórica, social e moral, o cortiço de deus deveria se preocupar e dirigir sua censura compenetrada rumo a seus enteados e pombas-chinfrim pornograficamente inspirados pelo vinho extraído de seu próprio poço artesiano, cuja cristalina elegância-sanção soa, destoa e destrona a mais legítima blasfêmia. O estilo aqüoso de Chico Alvim desafia a calmaria de um chamariz de dengue. Faculta abstrair de sua eugenia-paquiderme versículos-blasé. Adiciona tão nada que permite haurir um milagre qualquer. Tão completo como uma tábula rasa ou um quarto escuro: lugares-comuns onde qualquer boçal projeta interpretações das mais espalhafatosas sem nada além do senso-instinto de divagação. Aceclas alegam que o cônsul-Beja omite a ranhura da própria garganta enquanto emite recortes-averbação duma sociedade-cabaré. Vejo nele mosaicos-senzala, um golpe-retórica tão populista quanto manuelbandeiristamente kukluxklânico. Não incorporo pombas-gira e sim cornucópias-pirueta. A olheira delata o olheiro, a paisagem a aptidão do binóculo. O oásis a vida útil da clepsidra, a realidade o quanto o leque aventa o efêmero. Não dê vazão à raiva da locução interior: apenas seja fiel ao desconcerto por ela provocado. Zippo é chique, sofisticado, aparato dândi, mas sua chama ainda tosta com rusticidade. Os complexos de Édipo e Peter Pan tentam abafar o instituto do incesto. Doenças têm meu sintoma. Paulo Coelho foi à Rússia e eu sequer saí de casa. Ouviu, estressada-faladeira? Solta. Nah. Deixe-me caminhar pois hoje é segunda-feira e nas segundas-quartas sou gênio de pequenas causas. Tchau filhote. Alguém viu meu isqueiro?

09/11/2006

Entrevista




Nome, data de nascimento, naturalidade, filiação etecétera:
Ricardo Wagner Alves Borges. Aquariano. Nascido em 27/01/1978, às 08:16:47, filho de parto natural, em Araxá (MG). Filho de Danilo Pereira Borges (in memoriam) e de Vânia Edméia Borges. Tel.: (0xx34) 8845-3773. Sangue tipo O+. Estatura: 1,77 de altura, segundo vouyers, e 3 de largura, segundo parceira de forró. Pesa, segundo a última tábua de Ouija consultada, 84 quilos. Bom de briga e ótimo amante. Só bebe enquanto fuma, só fuma enquanto come. Rói unhas e quinas de carteiras escolares. Viciado em rapé. Empola quando entrevistado. Hostil quando confundido com escritor. Tem esperança de um dia curar seus analistas.

Endereço completo:
Praça Coronel José Adolfo, Pensão Tormin (antiga casa de Dona Beja), nº 48 – centro, Araxá (MG), Brasil.

Biografia:
Eis o escorço: Nasci com 2 quilos e 850 gramas, com cabelo espetado, cabeçudo. Exatamente um mês depois, sofri uma delicada cirurgia no ouvido esquerdo. Aos 5 anos de idade fui enterrado na areia por meu primeiro amiguinho, o qual está hoje soterrado em dívidas. Quando em tenra infância, adorava desenhar robôs, jaspions, monstros, mulheres peladas e genitálias. Edificava maquetes de casas com páginas arrancadas de livros de matemática. Aos 9, tomei uma mangada na testa, de Marcelinho Engraxate, líder dos “abeia”, enquanto tentava impedi-lo de entrar na horta de minha avó. Aos 11 levei uma tijolada na nuca do irmão de Níkias. Aos 12 matei minha primeira meia dúzia de felinos filhotes com zarabatana caseira. Na alta adolescência, arrisquei os HQs, charges e caricaturas. Nessa fase, más línguas alegavam que perdi meu pai para o álcool. Ledo equívoco: perdi meu pai para a maleita, em Rondônia. Meu pai desenhava muito bem. Herdei um pouco disso. Mais tarde montamos, eu e um sócio, um ateliê, no qual trabalhávamos com arte por encomenda. Utilizávamos nanquim. Traquejava. Ouvíamos pagode sinfônico. Certo dia, um representante de classe duma escola estadual local solicitou nosso trabalho. Eu o fiz, na íntegra. O sócio se incumbiu de entregar aquele, embora tenha adulterado minha firma, e posto a sua no lugar dela; malgrado tenha arrecadado todo o dinheiro sozinho. Humpf. Não consigo me perdoar por havê-lo perdoado. Ou seja: tive uma adolescência comum, regada à profusão hormonal, acnes, acnases, boletins escolares vexatórios. Fui militante do partido comunista. Protometaleiro. Bom nalguma atividade extracurricular. Hoje sou bacharel em Direito e trabalho na assistência jurídica gratuita, na qualidade de assistente-advogado. Escrevo enquanto clientes, representantes legais de indefesos lactantes, acendem o cigarro, contentemente incontidos com o fato de eu postular a prisão civil de seus pais salafrários. Ok? Sem etecétera-delongas.

Quando, como e por que começou a produzir textos literários?
Instaurei o “nobre” ofício aos 19/20 anos de idade, quando fui agraciado com minha primeira condenação criminal na comarca de Araxá. Recluso, tive a imensurável benção de ter contato direto com clássicos da literatura nacional, na linha de Augusto Cury, Maurício de Sousa, Sidney Sheldon, Rubem Alves, Olavo Drummond, Heleno Álvares e transgressores congêneres, em vez de ler Sexy, Playboy, G Magazine e manuais do sexo manual afins oferecidos pelos demais detentos. Assim, além de me alfabetizar e refinar a informação adquirida, contrair sarnas e algumas DST’s aprofiláticas, descobri esta supravocação, e comecei a anotar cantinelas de extremo bom gosto as quais entoava aos colegas de cela – os únicos a estimular o intento persecutório de encontrar o alvará-literário. Estou a produzir textos porque o Sumo-Artífice, o qual asseguro haver encontrado no ergástulo público, assim o quer. Aliás, não escrevo bulhufas, apenas registro, com fidelidade e hombridade, o ímpeto cósmico passível de decodificação e entendimento humanos. Logo, sou ou não iluminado? A recompensa: atualmente sou um homem realizado: rico, famoso, desejado, perfumado, invejado, livre, empregado, casado, coleciono filhos, netos, enteados, poodles, bonsais, e gize: sou neopentecostal (Gloria gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntatis...) e circuncidado.

Bibliografia:
Rumores da Existência, 2002 (Araxá/MG); Aind’Essência, 2004 (idem); Com fissões de um protusuário de boteco, 2005 (idem); Os blogues Caossada, Prepúcio, Prodigus, além de participar dalguns periódicos de renome dos quais agora desconheço o paradeiro.

Qual sua opinião sobre literaturas e sobre a produção literária atual?
A seara literária se faz demasiado infestada de consumidores de açúcares, não de leitores. Certos operadores da linguagem e processadores de texto devem tomar bastante precaução, prudência: se um diabético ler o que compõem, morre instantaneamente. Difícil chegar ao termo, mesmo em se sendo chocólatra, imagine para um diabético? Uma metáfora-granulado pode ser fatal! Um aforismo-rapadura soa culposamente criminoso! A criançada, não tão ingênua, aprecia guloseimas, balas, jujubas-signo. Mas com pieguice não se fala do Amor, e sim de receitas para bolo, torta e demais iscas para formiga. Chega de burocracia cardíaca! Os escritores de hoje são talentosos: gourmets, doceiros, chiefs. As pessoas não sabem divisar a linha entre o que é literatura e o que é concebido por quem necessita se expor como poeta. “A autêntica poesia é uma música bela.” Balela! A poesia ‘conduz’ ao belo, e beleza significa tudo aquilo capaz de gerar deleite: conseqüência subjetiva, pessoal, relativa, variável, discutível. Segundo a ditatura da beleza, a mulher ideal deve sofrer de anorexia ou bulimia ou ambas juntas. Da ótica da medicina, isso sempre soará feio. Eu e outros urubus apreciamos as mais roliças, desengonçadas... Mudando de assunto, admiro quem não se preocupa em zelar pelos conceitos e príncipios íntimos acanhados, auto-censurados. Não há como esconder nada sob cuecas, lingeries sequer mediante castração, se tenho a linguagem em mãos: por mais tímidas que estas se me afigurem, um dia elas se rendem à tentação. Não há nada mais toxicante que um ambiente não visitado. Só se preserva o sagrado, revelando-o, independentemente do meio ao qual se pertence. Convém abordar motes underware, sem dispensar a criticidade possível dentro de regiões venéreas. Possível extrair conceitos e princípios de um ambiente toxicante, e oferecê-los numa construção inteligente a partir do material lá haurido. Basta aos penduricalhos-lexicais! A internet, legado do anarquismo, oportuniza a todos produzir e dividir entre todos o produzido, embora isso estimule a distribuição indiscriminada de egos, flores e jujubas, freneticamente, sobrecarregando o tráfego de conteúdos. Reitero: os escritores tendem, aprazidos, a falar de Amor com pieguice, amenidade ingênua e inoportuna, cortesia surreal. Não criam, apenas rezam terços bizantinos, e se ajoelham perante o diminuto. O Amor, sendo nobre, deve ser revelado em todas as nuanças, prismas e cismas. Destarte, por que enfocá-lo necessariamente com suavidade? O Amor pode e deve ser extraído de guetos, e não apenas de ambientes incensados com glamour paladino. O Amor é um sentimento universal, e a faculdade de interpretá-lo também. Ora: o Amor pode soar inusitado, agressivo sim. O ontem foi a era rentável para a estirpe da auto-ajuda (anarco-individualista); a praga de hoje é escrever biografias aparentemente diets. As editoras se mostram empolgadas com biografias de “profissionais do sexo” (exempli gratia, Raquel Pacheco, nome real do néon ‘Bruna Surfistinha’), como se bastasse colher meras experiências inerentes ao ambiente hostil para se tornar escritor aquilatável. Blergh.

Qual a importância da literatura para pessoas, individualmente, e para a sociedade?
Difícil vislumbrar qualquer ganho substancial obtido mediante o exercício da literatura. Nem eu sequer a coletividade precisamos dela. Aliás, ela é quem realmente precisa de nós. Escrevo justamente para me livrar de algo, não para ganhar. Muitos literatos neófitos preconizam que “o que seria do mundo sem a poesia?”. Em que nos pese, prefiro formular: “o que seria da poesia sem o mundo?”. E não interprete isso como um mero capricho de inversão, de espírito de contradição gratuito, em plena ansiedade de comunicação. O mundo pestaneja, e clama por silêncio. O conceito de literatura deve imediatamente ser revisto; a idéia de importância deve ser lavada a jatos rústicos. Nem tudo o que é importante é útil. Escrever não é escolha tampouco dádiva, mas sim uma sina; uma sensibilidade-inferno de conviver com o descontrole-incumbência de desmitificar o que nos cerca e amedronta, tendo em mãos teclas, traumas e particularidades com as quais delineamos e delimitamos as estruturas a compor o objeto pensado-pensante. Enfim, a importância da literatura revela justamente o ancestral embate de provar ser ela necessária, praticando-a, desinteressadamente. Sempre soubemos de seu valor, mas não podemos nem através dela explicar os porquês. A literatura cria o conflito, não o soluciona sequer aponta paliativos. Por isso ela fascina. A literatura inaugurou uma nova modalidade de guerra, onde quem escreve e lê participa, co-age.

Como escritor, o que recomenda às crianças, aos jovens e a quem estuda letras?
Não tenho cacife para recomendar nada, sistematicamente tratando. Não sou doutrinador, religioso, analista, médico, guru. Entanto teimo. Recomendo, às crianças, ler Ero Guro; aos jovens, praticar parkour, aos acadêmicos de letras, ignorar a nota baixa atribuída à sua entrevista. Saibam que exerço a prática forense, sendo assim, detenho conhecimento, parco, acerca disso. Recomendo então paciência às crianças, quando o pai não cumpre a obrigação alimentícia. Talvez ele esteja custeando álcool aos companheiros de gole, nalgum antro; talvez ele não seja um alcoólatra, pai egoísta ou troglodita apático; talvez ele seja um poeta em potencial seguindo as atuais tendências, e uma delas é freqüentar ambientes hostis e toscos. Às mães desses infantes: não manejem, antes de conversar com o pai, uma ação de execução. Às vezes ele precisa de alguma editora, e não de um anjo do AA, esporro do magistrado ou contar carneiros na cela. Aos jovens digo: os pseudo-intelectuais asseguram que a tv é nociva. Não é bem assim. Conheço gente que escreve bem à beça e nunca leu um gigante ou se preocupa com tal. Conheço gente autodidata em servo-croata que logrou aprovação num exame, e hoje intercambia por aquelas paragens. Possível apreender algo útil com a “suposta” inutilidade, partindo do pressuposto utilitarista: sendo útil, tudo posso. A tv imbeciliza só os predispostos à imbecilidade. Professores, independentemente do curso, adoram o jargão “tv leva à letargia mental”. Humpf. A leitura auxilia na comunicação, no domínio do idioma falado, mormente no escrito, mas não facilita no dinamismo do processo de criação sozinha, nem determina o curso do pensamento e o caráter do pensante. Tudo influencia, mas nada pode ser reduzido a letras. O que se abrevia, distorce-se, falsifica-se, atrofia-se. A isto existe um rol infindável de instrumentos de expressão: um podendo escorar o outro, cada um com sua contextualização, solidez e tradição. Ademais, universidades consagradas se resumem a celeiros de cérebros. Outro jargão besta. Quase fascista. Qual o problema com o aprendizado atípico? As universidades hospitalizam, não curam o doente de si mesmo. A formação intelectual depende muito mais do interesse pelo conhecimento do que do interessado em distribuir conteúdos. E conhecimento cabe em qualquer lugar, e em que pese a verdade, até no diálogo com a puta bêbada analfabeta se pode extrair raras louçanias. A seara universitária não aponta a solução, pois mal revela o problema o qual não sabíamos existir, e que agora sabendo, vislumbramos uma sinuosidade certa. Há fatores e fatores que moldam um grande escritor, os quais podem ser achados aquém ou além da cúpula-letra. Estatística aponta: 1/3 dos nacionais representa o índice de analfabetismo vigente, embora mesma apuração valha para os iletrados com curso superior completo sob a manga. Nas carteiras universitárias se concentram os receptores mais passivos de informação. Âââââââââââ. Saliente-se: não só o culto à linguagem escrita influencia a ponto de aprimorar proporcionalmente a linguagem escrita na medida em que se a cultua. Se Machado de Assis não estiver ao alcance da percepção e interesse púberes, o jovem, insistindo em entendê-lo contrariada e inoportunamente, sentirá desgosto em relação aos demais escritores, criará uma barreira de difícil transposição no tocante à literatura. Não é a idade cronológica o indicador da maturidade, mas a idade mental, isto é, a existencial. No ensejo certo o jovem saberá escolher o que cabe naquela ocasião. Introduzir clássicos goela abaixo só piora a digestão. A leitura é necessária, mas não essencial. Devemos observar tudo, e todas as vertentes de linguagem. A literatura é só mais uma dentre muitas manifestações artísticas. Superestimá-la significa desconhecimento do próprio objeto. O estudante de letras deve entender que seu curso oferece caminhos para o mundo, e não mundos a caminhar. Quem acredita que um autor cria um novo mundo sofre de autismo.

Uma mensagem, como escritor, para ser apresentada a quem tiver acesso a essa pesquisa.
Pesquisa? Pensei que estivesse sofrendo uma "entrevista"! Desconsidere tudo. Por acaso tenho perfil de unicelular bizarro descoberto em águas remotas? Bah. Deixo 5 mensagens. O diploma matou o conhecimento. A palavra corrompeu, encarquilhou a verdade. Escrever não é dádiva, mas sina em vigília. Inexiste unanimidade naquilo que envolve escolha. Quem precisa de ereção é o caralho, não o homem. Posso ir?